Escrevência – Produção das participantes – Dia 1

Seguem alguns textos criados durante o primeiro encontro do curso no dia 17 de fevereiro de 2024. O objetivo principal é possibilitar às participantes a oportunidade de transformar experiências pessoais em expressões artísticas e poéticas. O encontro foi conduzido pelo acadêmico Alexandre Bernardo

Eu não finjo, eu cuspo
Às vezes, com verborragia,
o que pulsa dentro de mim
Para não sucumbir à doença.

Quando mancho o papel
Com esse palpável pesar,
Alívio inegável ou ideal
Brota de mim, a dor, o torpor.

Eu e todas as vidas que vislumbrei,
As que não vivi,
As que sonhei,
Pois, se imaginei, experimentei.

Mas é, sim, compreensão
Um filtro para a ilusão,
Pois não é fácil, o ser gente
E eu anseio pela autenticidade.

Niél Sàlim

Admito, eu já o conhecia mesmo antes de você chegar. Meu amor só aumentava a cada dia mais. Eu amava sentar e cantar para você dormir; eu aprendia todos os dias o verdadeiro significado da palavra amar. A enfermeira não reclamava quando eu cantava para te ninar, isso me fez achar que eu não cantava tão mal assim. Voltei para casa toda costurada e chorando de dor, mas trazendo nos braços o verdadeiro sentido da palavra amor. A primeira vez que você sorriu, me encantou com tanta beleza e magia. Meu coração vibrava, se enchendo de alegria. A polícia nunca bateu em minha porta, isso era o sinal que eu estava cuidando bem de você. O tempo foi passando, você cresceu e continua iluminando e contagiando por onde passa com seu sorriso, sua alegria e espalhando sabedoria. A você, minha eterna gratidão por ser meu porto seguro, meu companheiro, meu amigo, minha paixão. Obrigada por sempre estar comigo e segurar a minha mão quando eu estou frágil e perdida neste mundo de imensidão. A propósito, qual é o seu porto seguro mesmo?

Este texto dedico aos meus filhos que amo demais

Dorinha

Tempo

“Previsão do tempo para hoje: O tempo está passando.”

Esta é uma frase que está se tornado comum, principalmente em letreiros de algumas pousadas que nos convidam para aproveitar as férias.

Mas quando penso no tempo, a única coisa que consigo perceber é que ele está acabando…

“Quando a gente vê já é natal…”

Quando a gente vê, a vida toda se passou e nem deu tempo de fazer as coisas que planejamos.

Angustiada, por vezes encaro o tempo como alguém que me pregou uma peça ou como uma pessoa em quem eu possa colocar a culpa e até mesmo desabafar brigando.

A lista de desejos e de coisas que pretendemos realizar é grande, mas talvez o dever de casa que teríamos que fazer era apenas o de aproveitar melhor cada instante do tempo que temos.

Às seis da tarde, às dez da manhã, na prorrogação do jogo que seja…

O importante é perceber o tempo como um ciclo de aprendizagens e de experiências.

O tempo voa… o tempo está acabando, o tempo cura as lembranças, mas como diz o poeta, o tempo não volta nunca mais.

Tic-tac…

Tic-tac…

Belister Paulino

Poeta é transmitidor da dor
nem sempre pelo mundo a fora o mesmo lugar tocará essa dor.
A cada um encanta
Em mim floresce
Em ti aquece
Nele talvez já não o expresse.
Bom, independente de que coração acelere ou a qual mente interesse
a poesia sempre vai ter oque dizer, eu sempre vou ter que dizer
para que todos possam ouvir
mesmo que em alguns
não desperte a emoção do sentir.

Bru

Almoço grátis

Chegado a terra
O homem se espanta com tamanha grandiosidade
E perfeição

O almoço é grátis, o banquete é livre
Mas logo a natureza humana o faz desconfiar
Mas e se acabar?

Do medo do fim, da desconfiança da abundância
Surge então a primeira cerca
E logo é cunhada a palavra “meu”

Mal sabe o homem que criou ele mesmo
A falta

Com a força da ganância então
Em velocidade recorde
O planeta é transformado
Numa confusão de limitações

O que era até então livre
A natureza divina de fazer o bem sem olhar a quem
É cerceada pelo egoísmo

Terra engolida, processada, destruída, poluída
O homem então finalmente toma consciência de si

Aonde será que me perdi?
É necessário retornar
Visualizar

Que toda a criação é enfim
Comunitária, coletiva
E cabe ao homem então
Reconhecer, reaprender
A nobre arte de compartilhar

Cami Russi
Seria o ser o humano o único para o qual o almoço não é grátis?

Coragem

Não tenha medo
Seja forte e persistente,
Não erres e não se deixe cair ao cãos.

Pense e Repense,
Que não irá temer,
E vá enfrente a desencadear.

Erik

Instante

De repente sou abatida,
Sou gente, sou carne, sou osso!
O homem combate o bicho.
O bicho que mora na gente,
Que devora a carne, que sacode o osso e suga o sangue do temente.
Sou um bicho também,
Sugando o ar, comendo o mato,
Rangendo os dentes!
De repente, imperceptivelmente,
Me vão as forças, as dignidades.
Sou abatida, caio, arrasto-me na lama, peço clemência, sou gente também!
No misturar das instâncias, nos movemos nesta imensa bola, de vida farta.
De repente, não mais que de repente, caímos todos e seremos jantares a outros!

Anna Costa

Minha solidão

De todos os seres em minha volta, sempre fui eu a mais difícil de respeitar.
Enfrentar meus fracassos e mágoas chega a pesar.

Diria eu a mim, que não sou capaz de suportar, mas eu sempre suporto, e terei sempre que me tolerar.

A solidão é um despir de almas, e se não for eu a enfrentá-la, creio que não há nenhum outro lugar que faça sentido chegar.

Safira

A (Im) Perfeição

O que talvez me tranquilize
É que tudo neste mundo,
Existe com uma certa imprecisão.
Nem sempre o que é do tamanho de uma agulha,
Passe, de fato, por esta agulha.
Embora façamos questão de fazer com que tudo nela caiba.
No fim, o que existe é imprecisão.
Pena que nos falte um olhar refinado…
Por isso, permanecemos, muitas vezes, num mundo superficial.
Talvez seja mais cômodo, confortável, viver dentro da agulha
Quem sabe, ao final, sejamos capazes de enxergar a verdade secreta e o sentido humano das coisas.
Possivelmente, assustados, reconheçamos o mundo coberto de verdades diante de tanta imperfeição!

Maria Luzineide Ribeiro

Não me deixe morrer

Quando for embora moço branco como a neve
Me leve
Me leve

Se não puder me carregar pela mão ,menino branco de neve,não me deixe aqui nesse chão,me leve ao menos no coração

Se seu coração ocupado estiver,moço dos sonhos e de neve,me leve pra o seu lembrar

E se aí ocupado também estiver,cansado,aflito,preocupado,por tanta coisa que aí o persegue,moço dos sonhos e de neve
Me leve

Me leve ao menos no esquecimento,nesse espaço vazio e sombrio
Moço do sonho e de neve
Ocupe o seu esquecimento
Me leve
Me leve

Zélia Fernanda

ENGANAÇÃO

Postou mais uma vez como se fosse o único.
A selfie enquadrou como se fosse máquina.
Esperou ansioso pelo falso público
Os dedos rolando como se fossem mágica
Curtida por curtida num delírio sórdido.
Dançou e gargalhou como se ouvisse música.
Retirou as cortinas do cenário flácido
e despejou no lixo a comida plástica
e descobriu tristonho que não era um príncipe
e se acabou no chão feito um menino tímido.

Douglas Beisl

Uma resposta para “Escrevência – Produção das participantes – Dia 1”.

  1. Avatar de Belister Rocha Paulino
    Belister Rocha Paulino

    Foi uma experiência maravilhosa essa aproximação com as nossas referências literárias para encontrar a nossa própria voz na escrita! Todos os textos se inspiraram e inspiram quem os lê!!! Parabéns a todos e todas!!!

    Curtido por 1 pessoa

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