[11:33, 03/10/2023]

Aqui, tem fragmentos nossos.

Tem teu timbre quase amargo em despedida; tem tuas veias que se misturam no meu sangue-poesia; tem neblina quente em chuva fria-nublada; tem sempre nós em cada ladrilho, esquina, risada. Não tem jeito não, meu amor. Meu peito quer em ti, morada. Meus olhos buscam em ti, abismo. Eu salto, encharco. Volto, sou tua.

Eu sou peito em fogo e mar aberto. Sou terra quente armada em brasa. Sou flor e chuva em pele tímida. Sou tua e céu e sempre. Sou sempre a mesma, a última, fadada ao teu amor-labirinto. Desato os nós. Queimo e ardo em fúria. Trivial é te ter todos os dias, em cachos e luz e céu-poesia.

Mas tem fel e lentidões de processos insustentáveis. Não sair do lugar, fere. E é só você que eu quero até os brancos dos cabelos tomarem espaço, se espreguiçarem e decidirem ficar.

As vozes outras ecoam em vão. A minha voz te quer ouvido e pele e canção. Vejo nas tuas lágrimas, espelho das minhas. Quero te fornecer peito-casa, mas preciso descanso-canção. Não tenho mais fôlegos. Tudo é escuridão e chuva forte no telhado. Da minha janela, não te alcanço. Choras por mim?

Eu tenho chorado todos os dias. Derramado com ou sem lágrimas. Eu me entreguei a um amor de carnaval. E hoje imagino qual marchinha eu deveria escrever pra você; imitando uma cantiga de escárnio, maldizer, amor ou amigo? Eu ainda sei te escrever?

Eu ainda quero te escrever? Qual espaço que nos cabe nessa vastidão de sete bilhões oitocentos e oitenta e oito pessoas, duzentas galáxias, oito planetas e cinco mil outros mundos? Eu ainda sei te escrever?

[11:34, 03/10/2023]

– Ei, moço! Raspa do meu globo ocular esse perfume?

– Mas não estamos falando de olfato?

– Ah, moço… quando se trata dela, a sinestesia é ausência de entendimento dos sentidos. Raspa pra mim, vai?


2 respostas para “[11:33, 03/10/2023]”.

  1. Avatar de Alexandre Bernardo
    Alexandre Bernardo

    Texto maravilhoso! Doeu aqui!

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