rima suja ou tabacaria do cerrado

eu plantei semente, nasceu planta

e veio de repente, com seu rio

com seu riso, passo e mijo, uma anta

a vida da gente é assim, do tamanho de anta

feito vontade que se agiganta

de semente a planta semente a planta de sementa a planta

a mentira é uma vontade de ser verdade

quando a gente olha horizonte e é cinza, mas ah, que vontade de que fosse fevereiro

eu, menino seresteiro

vestido de branco, querendo botar pena, pluma, tamanco

vestido não só de cores, mas de palavras

que aprendia, lambendo o cheiro dos livros

o orvalho, o ocaso, a alvorada

o crepúsculo, a alva, o solstício, o arrebol

o poente, a semente, a mente, a gente mente…

eu menti mentira de caralhos, bucetas e cus

quando aprendi, menino ainda, a xingar como quem escreve nomes

contornados de corações

na carne casta marrom das árvores

o meu sonho era botar o pneu da bicicleta nas rochas do cerrado

punho cerrado

dente cerrado

um ódio jamais visto, marcado no fundo do sonho do pesadelo…

daí eu desperto, eu vejo

vó de braço taludo pilando semente

era café

o cheiro que compõe as manhãs

era pajé

a força do braço flácido e gordo de mãe-mães

estende o braço e me oferece uma benção uma macumba um ramo de espadedesãojorge

eu tenho é medo

nem te contei

de barata

sempre que perguntam qual seu medo

eu tenho medo de responder que de barata

que parece um medo banal

parece que não ficaria bonito dizer isso na entrevista do jornal

mas por que é que a gente tem que ter medo de dizer qual é o medo da gente?

feio mesmo é esquecer

péra aí

eu esqueci o que ia dizer

peço um minuto de silêncio

um minuto

de silêncio

por que você ainda está lendo?

pedi um minuto

de silêncio

péra aí…

eu queria ter um filho

pois é

sonhei com um filho

você imagina que lindo

ele chegando do jardim de meninos com gravata de EVA e feijão plantado no algodão

eu queria ter menino, que eu aprendi a fazer a barba demasiado tarde

eu queria pô-lo no colo no mesmo instante em que ensino a ler e a fazer a barba

eu queria tudo agora

filho menino futebol dente namorada formatura apartamento barba

eu preciso de voltar pra casa

eu comi alguma fruta estragada

veio do fundo de uma garrafa verde

veio do algoritmo que me ilude

veio da sentença que diz permaneça não mude

veio do hálito doce de quem diz que está tudo bem

veio de um budista zen

mas eu sei que não está tudo nos trilhos

eu sonhei mas não pari meus filhos

meus futebóis, minhas namoradas dentes formaturas e lençóis

lençóis? eles vieram do desejo sujo de uma rima de algo inconsciente?

qual seria a minha inconsciência de lençóis?

quando eu falo dos meus lençóis e da minha inconsciência

você pensa nos seus lençóis e na própria inconsciência

e você pensa no sonho, e você pensa no aborto do sonho

e no afago

e você pensa em alguém

aí é que eu te indago

quem?

quem roubou seu sonho de menino de ter menino

ou menina sei lá

quem roubou teu sonho de um brasil vernacular?

quem disse que uma casinha de cobogós e muro baixo não era segura?

você diz que não foi você, josé

jura?

eu nem vou te responder, eu que sou do desver

ando olhando pro alto, olhando pras nuvens

saí andando a esmo

tropecei numa cadeira de plástico

era céu vermelho, piroclástico

pedi uma cachaça com torresmo

eu vi em você a mim mesmo

juro

bebendo, vestido de menino vestido de branco

puro

eu quis nos oferecer então a cor, a dor

o vermelho cerrado, parecia errado

botar mão naquela lama suja

alguém, da esquina, gritou fuja

mas eu fiquei, errei, pequei, pedi mais uma lata

quando eu vi o viralatacaramelo

o viramelocaralata

que virtude, tão belo

a lama em volta, envolta a vermelhidão

em volta da minha mesa solidão

vermelho urucum

foi me dando até uma alegria

giro de moto passou, um vrum-vrum

uma saudade inventada, um eletrofunk da bahia

botei os pés na rua que anda

até tropeçar em casas, rinha de galo, terreiro de umbanda

e o mundo se enchia em luz nos meus olhos

apagada a luz do poste, goste ou não goste, amanhecia o dia

pardal, pastel, quero-quero, dendê, piseiro e melancolia

gente, carroça, bossa e uma dor de alegria

ver as cores do horizonte, mirar o alto do morro, o monte

logo, o passo de muitos homens

cavalos, chapéus de couro, de palha, cavalgadas

uma vida sem fábricas naquelas beiras do mundo

mas com patas, palhas, penas, cafézin e assunto

e um rapé e um trago

um ipê brandindo flor de junho lá no alto

eu cansei, eu escrevi o suor no curso da rua

feito um rio

imagina meu suor de escrever essa rua

enchendo essa rua

fazendo dela um rio…

se eu boiar nesse rio eu quero ainda desaguar num forró pagode samba

uma samambaia que me arranca

risos como quem nunca viu

que ela

acenando

lá da margem rio

da puta que pariu

do alto do morro de um sonho febril

lembrava-me que não sei diferenciar sonho de carnaval

que seguir rio-rua abaixo, para mim, era natural

eu, menino, você já sabe, vestíamos branco

desci o vermelho barranco

para cair, fim da tarde

 num quintal

na sombra verde de uma jaqueira pé de manga cajueiro

só me sobrou o tempo vazio

mas verde verdadeiro

às águas correntes d’um rio

as notas surdas, lá no fundo, d’um piseiro

o sono batendo nas marés da rede

verde, a alma do mundo

deitando o sono, assim, profundo

meu rincão do universo

eu mereço, eu meço, caio nesse espaço mudo

me caibo nesse espaço torto do mundo

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