Minha memória guarda uma lamparina acesa de cenas vividas.
ㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤEra 1973, em Triunfo.
Eu estudava no colégio de freiras, o imponente Stella Maris,
e havia, nos fins de tarde, um tempo que era só meu:
um intervalo entre o mundo e o mistério.
Eu me recolhia na capela.
Ia devagar, quase em silêncio,
como se meus passos já soubessem
que ali dentro tudo pedia delicadeza.
Não era apenas um lugar
ㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤera um abrigo.
Os vitrais eram azuis.
De um azul profundo, quase líquido.
E eu esperava.
Esperava o sol descer o suficiente para atravessar o vidro e se transformar naquela luz azulada que invadia a capela inteira: paredes, bancos, chão… e também a mim. Eu me sentava e ficava ali, deixando o azul me cobrir como uma espécie de oração sem palavras.
Era também a hora do Ângelus.
Eu sabia disso.
Sentia que aquele instante tinha um nome,
um peso suave de eternidade.
Como se o dia estivesse ajoelhando.
E então,
enquanto o mundo lá fora seguia,
dentro da capela algo se abria:
ㅤuma madre, em algum ponto do silêncio,
ㅤㅤcomeçava a tocar o órgão.
ㅤㅤㅤAs notas surgiam lentas,
ㅤㅤcomo se tivessem nascido do próprio ar.
ㅤE nelas vinham mundos inteiros
ㅤㅤJohann Sebastian Bach
ㅤㅤㅤme envolvia com sua grandeza quase sagrada,
ㅤㅤㅤㅤㅤe Wolfgang Amadeus Mozart
ㅤㅤㅤㅤㅤㅤtrazia uma leveza que parecia sorrir dentro da música.
Eu não estava ali por acaso.
Eu ia para ver o azul,
sim
mas também para esperar.
Esperar aquele instante exato
em que a luz, a música e o silêncio
se encontravam
como se combinassem entre si
o segredo da beleza.
ㅤㅤㅤㅤE eu, adolescente, sentada entre bancos e vitrais, sem compreender totalmente, já sentia: havia algo ali que me iluminava por dentro. Algo que até hoje, quando o mundo se ilumina de um jeito especial ou quando a música me envolve, sinto como um sino distante, como o Ângelus ecoando outra vez dentro de mim.



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