Nunca mais!

NUNCA MAIS! NUNCA MAIS!

Cada palavra saía rasgando a garganta como as facas da raiva que rasgavam o peito de Noemia. Cada letra era pronunciada com a força do ronco ameaçador de um vulcão prestes a eruptir!

NUNCA MAIS! NUNCA MAIS!

A garganta de Noemia doía. Mas ela gritava cada vez mais alto, socando o ar com o punho fechado. As gotas que escorriam do seu rosto eram suor ou lágrimas?

NUNCA MAIS!

A cabeça dela latejava junto com a força dos gritos da multidão. Ela não ouvia a própria voz, mas o brado do gigante, rugindo e babando de raiva.

NUNCA MAIS!

Os homens de preto, de máscaras pretas, segurando escudos pretos, imóveis por fora, deixavam vislumbrar o terror por movimentos nervosos dos olhos. Noemia, dentes arreganhados, olhos em chamas, gritava tão perto de um deles que gotículas de saliva respingavam no escudo.

NUNCA MAIS!

Noemia falou devagar. Ficou com os dentes à mostra como um animal rosnando. Olhou profundamente nos olhos dançantes atrás da fresta do escudo. E cuspiu. Direto nos olhos. O homem os fechou por reflexo. Uma mão enluvada limpou. E tudo explodiu!

AAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHH

Fumaça acre, estampidos, o ar sendo cortado pelo zunido de um cacetete voando pelo ar, a dor vermelha estourando das costas para a cabeça, os olhos em fogo, o pulmão explodindo. E então, silêncio…

O cheiro de sangue era ferruginoso. A fumaça ainda estava no ar. Gente caída. Gente sentada atordoada, sangrando. Gente andando devagar. Gente olhando o vazio. As lágrimas desciam pelo rosto de Noemia, agora junto com sangue. (…mas, nunca, nunca mais!)

Os olhos de Noemia estavam fitando o vazio agora. E um fio de memória lembrou o porquê.

O cheiro de comida tinha deixado Noemia com fome. Ela correu os metros que faltavam para chegar no portão, que bateu atrás dela. Ela se encolheu esperando o grito de repreensão da mãe, que não veio. Ela deu de ombros e correu para dentro.

Mãe!

Nada. Noemia buscou com olhos que tentavam se adaptar ao repentino escuro da casa, depois da luz do meio-dia lá de fora.

Mãe?

Na cadeira, com uma colher de pau numa mão e o telefone na outra, estava D. Neacy.

Mãe??

Ela virou os olhos. E, só então, ela chorou. Noemia soube. Seu pai. Gaspar. Ativista político, defensor dos direitos dos trabalhadores, professor. O enterro foi de caixão fechado. Noemia tinha acabado de entrar na universidade. A mão da ditadura militar finalmente tinha pesado na casa dos Martins.

– Quando?
– Sexta.
– Onde vai ser Aloísio???
-Na frente do MEC. Depois da morte do Edson as coisas estão muito feias! Seu pai acabou de morrer…
– Meu pai não morreu, Aloísio, foi assassinado!! E tudo foi ocultado!!! Eu vou! (A voz de Noemia parecia gelo na espinha de Aloísio… a raiva dela deixou um gosto estranho na boca dele)
– É uma passeata pacífica… (Foi tudo que Aloísio pôde pensar em dizer)

Edson, o estudante assassinado, tinha posto pólvora no barril. A UNE, união nacional dos estudantes,  estava fazendo um bafafá. A luta contra a ditadura era vital. Mas agora, para Noemia, era pessoal. Seu pai estava à frente dos movimentos,  de dentro da universidade. Ele havia ensinado a ela que o poder emana do povo. E ela era o povo.
A morte de Gaspar tinha sido declarada como “acidental”. Mas Noemia sabia. Caixão fechado. NUNCA MAIS! Ditadura nunca mais!! A raiva era fria na boca do estômago. Ela ia fazer a parte que lhe cabia.

Dia 21 de junho de 1968 ficou conhecido como a “sexta-feira sangrenta”. Os relatos oficiais declararam 3 mortos, mas foram 28. Centenas de feridos. Mais de mil estudantes presos. A luta de Noemia teve fim às 22 horas e 53 minutos, no asfalto molhado da Avenida Rio Branco, no centro da então capital do país, cidade do Rio de Janeiro.
A ditadura, porém, proseguiu até 1985, quando Tancredo Neves venceu as eleições (indiretas), deixando um saldo (oficial) de 434 mortos e desaparecidos, entre eles Noemia e Gaspar Martins (nomes alterados). Dona Neacy votou para presidente da República em 1989. No dia das eleições, ela levou uma foto de Gaspar e outra de Noemia até a urna e colocou elas lá. Ela disse baixinho: “Descansem em paz”.

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