
Seguem textos criados durante ou como decorrência do terceiro encontro da 3ª edição do Curso Escrevência, no dia 01 de novembro de 2025. O objetivo principal do curso é possibilitar às participantes a oportunidade de transformar experiências pessoais em expressões artísticas e poéticas. O encontro foi conduzido pelo acadêmico Souza Guimarães, que trabalhou a técnica da escrita em fluxo e princípios de edição e autopublicação:
A escrita em fluxo se baseia num escrever automático, em que as palavras são passadas para o papel ou para a tela sem qualquer qualificação, julgamento ou preocupação estética ou moral – como o correr de um rio -, de modo a abrir espaço para a criação fluir livremente. Podem ser usados gatilhos criativos (frases, imagens, músicas) para iniciar essas escritas.
Ainda, reconhece-se o protagonismo do corpo no processo – a observação da respiração, da aparição das palavras e imagens internamente e das flutuações energéticas ao longo da escrita é fundamental para a construção de um estado de presença frente ao que está sendo gerado. A prática visa a estabelecer um estado de observação de si mesmo, não como quem interfere no percurso da escrita, mas como quem presencia seu desenrolar espontâneo através do corpo que escreve.
Criados os textos, entra em cena a habilidade de edição, por meio da qual se selecionam e reorganizam trechos das escritas em fluxo, potencializando sua a mensagem e carga poética. Agora, a pessoa leitora é a protagonista da edição: é a partir do olhar de quem lê que o trabalho no texto é realizado, uma vez que busca-se comunicá-lo da forma mais significativa possível.
Souza Guimarães

“Eu sou meu estandarte pessoal” – Manoel de Barros
Eu sou meu estandarte pessoal — como assim? Eu imagino que sou essa bandeira que vai à frente naquela procissão de senhoras e senhores tão alinhados em sua postura religiosa, aparentemente “santa”. Eu, como estandarte, sou levada ao vento, transpondo toda aquela sobriedade de gente que caminha atrás de um lugar no céu. Vou seguindo fogosa, leve, brejeira, dançando entre cânticos e ladainhas nem muito alegres, mas em meu movimento de baile, sigo em frente com minhas “coisas da vida”, ignorando os julgamentos alheios; os olhares atravessados dos “perfeitos”. Não deixo que o peso dos meus pecados me determinem, sou o que sou, “meu estandarte pessoal!”
Amém, aleluia!!!
Marisa de Andrade
Meu estandarte
O que dizer sobre meu estandarte pessoal, se na maioria das vezes me escondo atrás dele, e outras vezes não o carrego, apenas saio por aí sem me anunciar, e só querendo ver o que o dia vai trazer, o que o tempo vai trazer? O que o vento vai trazer?
E outras vezes faço um estandarte bem bonito porque quero que ele apareça e que as pessoas achem bonito o tecido colorido que coloquei e a beirada dourada e prateada e as letras garrafais porque quero gritar para a avenida que eu vou passar como um carnaval alegre, e vou passar com minha alegria antes de acabar o confete.
Cíntia Breve de Souza
“Sou apenas um tradutor de silêncios” – Mia Couto
Escrevo o que não digo
Não só por silenciar
Não digo olho no olho porque tremo
A mão sua
Falta o ar, não sei respirar
Temo não ter coragem
Escrevo em silêncio o que me transborda
É evasiva, contida
Paixão que arde sem se ver
Me mata uma certa sede de aventurança
De ir e ir com vontade
Ouvimos o gotejar da torneira
Mas não a vemos transbordar
Maria da Silva
Através do silêncio que habita em mim, escrevo poesia
O que seria a poesia?
Um conjunto de palavras?
Um conjunto de silêncios?
Mas porque faço poesia?
Para me libertar de mim mesma
Um poeta é como um pássaro
Um pássaro na qual a gaiola abre através da palavra
E o que seria está gaiola?
Está gaiola é uma parte de mim
É a parte do ruído mental
E a chave que destranca o cadeado
É o silêncio
É no silêncio que crio
É no silêncio que a palavra nasce
O que seria de um poeta sem a palavra?
A resposta
Eu deixo para o silêncio.
Yasmim Fernandes
“As coisas todas inominadas” – Manoel de Barros
Desnominar
As coisas todas inominadas são aquelas não ditas, não vistas. São aquelas que incomodam o coração.
Para que nominar coisas bobas, feias e as que machucam? Elas não precisam de certidão.
Para que ocultar aquelas que tanto nos fazem bem, pois querem e precisam de identidade, certificado de conclusão?
Eu mesma, não tenho um nome, sou um ser que anda na terra, fugindo de bicho, de gente, de tudo aquilo que não compreendo, de tudo em vão.
Ainda sou muito pequena, mas quando eu crescer, vou dizer à minha mãe: “Eu só queria inventar uma poesia”. E ela não precisa de nome não, só precisa de mim, do meu choro, do meu riso, do meu estado de coisa, da invenção das coisas, do meu se sentar no chão com caneta e caderna na mão, da minha cama já marcada do meu corpo largado, descompromissado.
Criarei palavras, uma junção de uma à outra para dar alguma coisa, para combinar e desmensurar. O dicionário? Largarei por aí, em um canto qualquer, porque sou meu estandarte pessoal, empunhando-o, do amanhecer ao fim da noite.
Depois, no chão, vou catando as letras soltas, elas caíram do sonho à noitinha, se entristeceram com o descaso, o infortúnio, o abandono, não fazem parte de história alguma.
Acomodei uma a uma, na mão, brincaram de cócegas, me fizeram rir à toa, sou eu uma boba, animação.
As coloquei na folha do caderno com muito cuidado. Uma após outra, foram juntando, letra, palavra, palavrão, por fim, era um montão, um amontoado de frases, em formação.
Sem palavras na boca e no pensamento, pude ver com os olhos de enxergar profundezas que ali nascia uma coisa, era a mais pura invenção, a verdadeira criação.
De posse do acumulado de folhas, pensei em um nome para criatura, e sigo pensando, pensando, pensando…
Anna Costa

The Ship – Salvador Dalí, 1942
À deriva
São pares opostos: o poder da escolha e o destino
Te vendem a ideia que você pode fazer seu próprio caminho
E te deixam no mundo, largado, solto, feito um barco à deriva
Nasci predestinado a lutar em guerras que não escolhi
Como o homem carregando o barco nas costas do quadro de Dalí
Cansado de lutar com vento, com o mar, sem outra alternativa
Viver é navegar sem bússola, ser levado pela correnteza do tempo
Talvez a maior liberdade esteja no questionamento:
Se não posso mudar o condicionamento, posso mudar a perspectiva?
Júlia Compan
eu morri
(para todas as vezes em que morri e continuei)
não gosto de mostrar minha escrita.
não acho ela tão bonita.
talvez por ser uma escrita enlutada de mim —
pois eu morri.
morri todas as vezes que tentei sorrir
e apontaram meus lábios.
morri todas as vezes que tentei existir
em contextos que eram pretextos.
morri todas as vezes que colocaram adjetivos,
zombaram
e tocaram em mim.
aprendi muito cedo
que o meu corpo poderia ser tocado
e não pertencia a mim.
então eu morri.
entendi que a minha aparência
e beleza
não poderiam coexistir.
então eu morri.
aprendi que o meu silêncio
seria o meu maior argumento.
então eu morri.
quando, aos seis,
fui culpada pelo abuso sofrido,
eu morri.
na primeira acusação de furto,
com as palavras presas
nas ondas que sufocam a garganta,
com os olhos derramando
e a boca tentando dizer
“não fui eu”,
eu morri.
eu morri tantas vezes
que, ao chegar aos treze,
vi que não havia mais vida em mim.
então eu tentei.
e mesmo não morrendo —
eu morri.
não consigo escrever sobre beleza,
porque ainda estou morrendo.
não posso cantar Belchior,
pois este ano,
eu morri de novo.
Ana Caroline Alves da Cunha
ECO LÓGICO
Lamentas porque nada em mim fala com nada que é teu.
A fala é o silencio de encontro com a gente mesmo.
Só se fala quando se cala qualquer coisa mal guardada.
Caso o corpo fale, dura tão pouco… Se com quem se fala, é tão ausente.
O que se ouve é o latente do que se sente.
Tantos falam e calam, quando quem ouve não olha para receber.
Fale, olhe, silencie, só para o quê ou para quem traduz em poesia a quentura do teu ser.
Cubra-te, descubra-te, envolva-te, só quando tudo que é teu, profundamente teu gritar.
Pior que não falar, que não calar, é não escolher.
Observa teus poros, tua alma, teu olhar.
De que tamanho é o vazio que grita?
Qual é a medida
És aquilo que é capaz de identificar, de fazer parte ou par.
És um mundo aberto para a luz de uma estrela: e luze e brilha.
Tu és aquilo que é capaz de conter, de reter, de crer.
És o que Deus foi capaz de sê-lo, num momento magicamente humano.
Tu és os olhos e os ouvidos de quem quer estar aqui…
Através de ti, nesse pedaço de terra silenciosa…
Até que, com todo o teu corpo, emitas uma canção de amor e salves toda a imensidão.
Ecologicamente, neste afã… seja atemporal.
Esteja em estado de graça. Suba no mais alto e olhe, com um prisma divino.
Abrace, acalente… feche os olhos, com a certeza da proximidade…
Essa força centrípeta é uma busca divina, do imaterial de mim e de outrem.
Assim sendo, sou mais e melhor… Inteiro, translúcido.
Beijo a alma, encontro a luz… E, acredito, de novo…
Eis, imbuídas nessas minhas escolhas, a oportunidade de reter um pedaço de eternidade.
Pois, amo quando posso oferecer…
O que nasce da simplicidade.
Quando ouço o pulsar do coração, também, do outro.
Quando acalento a agitação dos dias de quem me cerca.
Amo, quando liberto, para seres – aquilo que o brilho do dia te pedir.
– Aquilo que a solidão não pode atingir.
Quando te deixo livre para seres, mais do que veio ser…
Quando estendo a mão e por amar tanto e receber tanto,
Num abraço terno, aconchego! Sou verdade, pra todos…
Logicamente conectados: ecos reproduzindo sintonia…
Por tantas e quantas vezes, Deus nos quiser, emanando luz para o universo.
Luzieth Lira Lemos
Eu não sei com que cor escrever, se prevalece mais o preto. Não vai ser visto mesmo assim. Eu prefiro continuar escrevendo e pintando colorido. Alguém há de enxergar minhas cores, mesmo que seja um dia distante. Não estou contando o tempo, mas já está passando cinco minutos. Não gosto de contar o tempo quando algo está bom. O vento a me soprar, os gatinhos dormindo, o doguinho suspirando uma aura melhor. Escrever sem parar isso pode me dar um pouco de falta de ar, porque eu preciso parar um pouco, nem que seja para trocar de caneta. Desculpa? De que? Se é assim meu escrever, minha escrita. Preciso de pausa. Escrita disparada, dispersa o coração. Eu não sei mais sobre o que escrevo. Acho que… Acho que outro vento, sopro de vento, veio e me acalmou. Ainda está. Mas comecei a pensar nas horas e troquei de caneta. Puts, odeio isso de pensar nas horas. Preguiça de ver as horas. SÓ escrevo. Mas comecei a pensar nas horas e troquei de caneta putz, odeio isso de pensar nas horas quando algo está bom, e sim, está! Que coisa, tô sem horas e não vou sair do quarto. Eu suspirei e já deve ter passado 15 minutos. Está quase completando meia hora. Escrever para mim, isso é louco, meia hora. Como sei que está passando esse tempo? Pelas páginas que lembrei do professor dizendo dele ter escrevido três páginas em meia hora? Cansada de racionalizar. É uma base, então deixa eu parar de pensar no tempo e escrever umas três páginas sem parar. Isso é tão excitante, eu amo escrever, parece que é uma corrida escrita e eu me sinto bem, porque eu amo escrever, nem que seja para acompanhar meus pensamentos como um diário, alguém que narra a própria vida o tempo todo. Eu amo isso. Registrar. Mas isso também me cansa. Até que é bom, sei lá. A existência já é pesada para mim e eu já estou sem paciência, nervosa e querendo dormir sem pensar duas vezes. Eu confesso que pensei. Quero terminar o que eu comecei. Lembrei de uma amiga de uma época. Ela me disse pra nunca deixar algo feito pela metade, que seja guardar suas coisas no lugar e tempo mais propício. Credo um pensamento aleatório agora, intruso. Me deixou sem ar, que saco. Me sinto cheia, cheia de tudo já. Já posso sumir, fingir que não conheço mais ninguém e dissociar. Mas eu nem finjo, eu esqueço mesmo de todo mundo, se eu quiser. É, dissociei pesado. Porque eu não esqueço porque eu quero. Eu não queria ser assim. Uma voz lá no fundo, de esperança. Que saco, não quero ouvir, tenho preguiça. Mas não é preguiça, é transtorno. Será que alguém vai me ouvir? Será que alguém vai me enxergar aqui nessa escuridão, que eu gosto até? É por isso que eu escrevo com caneta laranjada, porque laranja é alegre, como o rosa que é envolvente e romântico. Romântico de amor romântico. Romântico de amizades. Pode ser um pouco coloridas. Não necessariamente cores nudes. Eita, nudes. Eu namoraria meus amigos, que loucura, acho que ninguém vai me entender. Se ninguém me entende, o que posso fazer? Continuo a nadar, continuo a nadar. Eu acho que passou de meia hora escrevendo sem parar e eu já escrevi até o que não devia. Ah, tô nem aí. É o que veio e eu não vou mais escrever meia hora feito besta. Só quero terminar agora de caneta rosa e lápis de cor preta, pintando.
Regiane da Silva

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