Amor de escola

Na primeira série, quando eu morava em Campo Grande- MS, eu dancei quadrilha fazendo par com uma menina chamada Karina, em partes da apresentação ficávamos de braço passado e em alguns momentos dávamos as mãos, era a primeira demonstração de amor da minha vida, eu estava apaixonado. Depois da apresentação nunca mais vi Karina na minha vida, primeira paixão à primeira vista e primeira desilusão amorosa. Nos anos seguintes, eu sempre participava da quadrilha, já fui o padre, o pai da noiva, o noivo e duas vezes me vesti de mulher, tudo pela arte, mas também pela possibilidade de dançar de mãos dadas com as meninas. 

Na terceira série veio o meu primeiro namoro. Enquanto voltávamos para casa, eu tagarela como sempre, não conseguia prestar atenção que aquela menina que morava na rua vizinha, me olhava diferente, com ternura. Um dia, lhe escrevi um bilhete perguntando se ela queria namorar comigo, com opções de marcar “Sim” e “Não”, ela marcou sim e eu deixei para ler o bilhete dela no intervalo. Um menino danado, chamado Isael(Nome bíblico sempre gera crianças atentadas), leu o bilhete e ficou espionando a gente até que nos viu dar as mãos, no dia seguinte ele chegou mais cedo, nos desenhou no quadro e colocou dentro de um coração dizendo “viva os ponbinhos”, a turma seguia o refrão loucamente:

“Tá namorando!”, “Tá namorando!” 

Menti e disse que éramos apenas amigos, a mocinha nunca mais olhou na minha cara, mas eu lembro do único dia que fui para casa andando de mãos dadas com ela. A vida deveria ser mais fácil. 

No último ano antes de entrar no antigo ginásio, havia uma garota que tentava me agarrar a força. Não vou citá-la porque tenho medo dela ler isso, me encontrar e continuar me batendo. A menina, repetente, sentava no fundo, junto com a galera que dava trabalho para a professora, ela liderava uma gangue de pequenos delitos educacionais: furto de objetos escolares, empréstimo sem garantia de retorno na cantina e vigiar os meninos que estivessem de gracinha com alguma menina. Um colega, sentava sempre com uma amiga e apanhou porque ela decidia qual casal podia ser formado naquela escola, tenho para mim que a Educação de Jovens e Adultos foi criado com base na experiência dela.

Na última semana de provas do ano, Isael, tentando se livrar de uma porrada porque havia conquistado todas as figurinhas dela no bafo, gritou enquanto era suspenso no ar

“O Thiago namora com a Aline!”

Isael foi lançando no lado oposto da sala, aquela mistura de lutadora de Jiu jitsu com arremessadora de peso veio em minha direção, eu não tinha essa barriguinha de hoje, facilmente alcançaria uma distância de quatro a cinco metros ao ser arremessado por ela. 

“THIAGO, VOCÊ NÃO VAI NAMORAR COM ELA PORQUE VOCÊ ME AMA, FALA QUE ME AMA!”

“E… eu… te… amo…” Eu disse com um punho fechado em direção ao meu rosto

O primeiro eu te amo que eu disse a uma menina foi esse, na base da coerção. Mas até então eu nunca havia feito nada além de dar as mãos, então estendi as minhas a ela, ela me puxou e com a boca enorme demos um selinho que  me livrei quando não conseguia mais respirar.

“Eca!”

Se aquilo era um beijo, eu queria desistir de amar. Me traumatizou, só voltei a paquerar garotas com quinze anos.

Ela fechou a mão e preparou para me nocautear, mas fui salvo pelo gongo. A professora entrava com as provas finais na sala e pedia para todos sentarem-se.

Fui o primeiro a terminar a prova, saindo da sala, percebi Aline me encarando e sentindo-se vingada. As mulheres sabem se vingar. Corri para casa e rezei para Santo Expedito, o santo das causas impossíveis, para que eu não ficasse de recuperação. Assim eu não a veria até o próximo ano escolar, mas isso foi outra história que qualquer dia eu conto.

Fim

Beijo, gente!

Thiago Maroca é escritor, talvez ainda more na mesma cidade, casado e pai de família. Não me procure por favor, Francineide.

Não tenho meio de comunicação.

Abraço

Paz

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