Poucos são os dias bons, em que quase não me lembro do seu gosto. Noutros, como hoje, não tenho pra onde correr – seu cheiro empesteia a casa inteira. Semeio palavras, cozinho respirações, me alimento do sol, do ar, abro um novo canteiro e aindassim sua carne ausente inescapável. Parece insuportável o tempo, insaciável a fome, e eu como minhas emoções. Mordo a vida sem força, com medo de quebrar os dentes. O pedaço que me cabe, mole e malcozido, não me sacia. A refeição posta, me forço ao limite entre jejum e inanição. E se você não chegar?, seria mais doce do que a espera, ariano-saturnino que sou. Me apetece mais o fim abrupto, a possibilidade de queimar a fritura, do que a promessa cozinhando lenta, banho maria, banho de óleo quente na minha cara.

A vida não para, faminta, então inauguro receitas próprias de semi-satisfação. Basta comer até 2/3 da sua saciedade total. Eu devoro a vida, e a cada mordida quero mais. Antecipo a última garfada – melhor o fastio do que o aroma dos temperos ao fogo, alho e alecrim. Dourando meus pensamentos, a chama do coração me queima quando desatento viro as costas, é azia. O que sinto é fome e odores e vontade e moleza, maré alcalina pós-prandial. Há instantes regurgitei seu nome em lágrimas; agora, empanturrado, sinto enjoo ao pensar no seu sabor. Melhor terminar sozinho esta refeição, com meus gatos e dentes, e degustar esta abundância só minha. Como? Como. Devoro. E deixo o pedaço mais gostoso pro final.
Um só desfecho para tantos pedidos. Tenho distraído minha fome fantasiando como será ver-te novamente; a saliva inunda minha boca. Às vezes choro incontrolável, sem conseguir comer, noutras um silêncio embasbacado – não dou conta mais – tamanho o banquete. Na maioria delas, rimos, eu e você à mesa posta. Entre uma bocada e outra, pausas de espanto – que comida deliciosa! – e lágrimas sublimadas, saliva e suor. Tudo apenas por ver-te. Agora, quando eu te provar… explodo. Subo na mesa, me dependuro no candelabro e rodopio no meio do salão – nunca comi nada igual! – se preciso for, vomito e como um pedaço a mais. Quando eu te provar, estarei saciado: não vou sentir fome de mais nada, nem de mim mesmo. E esse é meu medo.

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