
Fincaram em mim a esperança de que a minha escrita era bonita. Dia outro, estava no ponto de ônibus quando uma moça folheava as páginas de alguma coisa que escrevi; reconheci pela capa. Ela parecia se emocionar. Limpou os olhos algumas vezes. Depois, fechou o livro com raiva, como quem não gosta do final. Em pensamento, fui afagá-la, colocá-la no colo e dizer que me sentia como ela: também não gosto dos meus finais. Maldito dia em que dediquei um ISBN às traças que roeram minhas ideias. Maldito seja o dia em que deixei de ser poeta ama(dor). Hoje, todos me apontam, arregalam os olhos, torcem o nariz, pois meu livro tem além de capa, nudes das dores e gozos mais profundos que já experimentei.
Decretaram: ‘Você gosta de sofrer para escrever’. Tenho pensado sobre isso. Seria a dor uma busca do poeta para completar suas linhas? Seria essa a graça então? Poeta: do suposto Latim ‘bobus’; hipocondríaco, exacerbado, inabilidoso. Tira foto com camisa de banda, mas nem gosta de rock. Fuma, mas os pulmões estão cheios-vazios de ais. Parece descolado, mas é poeta, do latim ‘bobus’. Usa meia e moletom, no sol a pino das 13h. Colhe uma amora do pé, joga a bolinha para o cachorro e olha nas câmeras, verificando se o barulho é de ladrão. Isso tá mais pra boicote à escrita. Que vida sem graça. Quem o lerá?
Ao entrar no ônibus, junto com a moça, ouvi-a dizer ao cobrador: ‘Quer ler essa merda de livro?’ É de um poeta amador; ele só pode ser amador. E eu pensei: não, é profissional. O erro estava ali.

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