Dano Cerebral e Eclipse

Este conto foi parte do Projeto Obscurus e o podcast com as narrações dos contos estão disponíveis aqui! Para ouvir este conto acesse AQUI!

Ele é só mais um sentado na grama. Tão parecido comigo e com você há tempos atrás. Saindo mais cedo da escola e passando horas e horas sentado em cima da mochila ou em páginas arrancadas do final do caderno. As últimas disciplinas listadas sempre pagavam o preço. Nunca ficavam completas. Mas o motivo era muito importante: era ver você passar.

O problema era minha mente muito solta. Dano cerebral poderia explicar? É até possível, mas o fato é que qualquer borboleta me distraia, assim como as saias rodadas de algumas meninas. Aqueles aromas de juventude acabavam me levando pra parte de trás do colégio, para as construções nos terrenos próximos ou para o Lago Paranoá, do outro lado da cidade. E naqueles momentos eu acabava me esquecendo de você.

Na sala, passava por todo o corredor antes de qualquer um chegar. Dobrava uma cartinha pra você e deixava na sua mesa. Suava frio de medo toda vez. Preocupado com você percebendo quem eu era e talvez decepcionada. Escrevia “Eleonora” sempre colorido. Seu nome era tão diferente e eu gostava tanto. Estava aprendendo “Eleanor Rigby” dos Beatles, só porque me lembrava seu nome e também não aguentava mais te ver entre as pessoas solitárias. Nada da Lenora do Poe.

O problema é que você nunca foi muito boa em adivinhar, não é mesmo? Achou que as cartas eram do Felipe, o fumante da escola, porque eu vi que ele te levava pros lugares escuros das margens do Paranoá depois da aula. Se não estou errado, foi seu primeiro. Depois achou que eram, de certo, do Antônio, loirinho, porque ia com ele escondida pra casa quando seus pais saíam à tarde para deixar seu irmão na creche. Só achei estranho me confundir com o Vicente, afinal ele nem era da escola e era bem mais velho, o que facilitava as fugas de carro para o estacionamento no Parque da Cidade. Mas eu não tinha ciúmes. Eu sabia que você às vezes era uma garota confusa.

Eu admito que comecei a ficar um pouco confuso também. As vozes foram aumentando e aumentando, mas eu fui forte e não fiz nada do que me pediam. Só atendi quando falaram para não contar. Eu fiquei preocupado em assustar vocês. Vocês não. Eu tinha medo de te assustar, na verdade. Os anos foram começando a passar e tudo foi se ajustando aos poucos. Todos nós estávamos crescendo. E eu me achei muito sortudo em continuar te vendo sempre que passava no minhocão ou no ICC da UnB. Preciso dizer que adorava o jeito que você arrumava o cabelo de lado quando sorria? Tinha uma certa hipnose nos seus movimentos que eu mal podia explicar.

Claro que fiquei feliz por perceber que os meninos tinham te deixado mais quieta. Os estudos eram pesados e acho que te faltava tempo também. Mas nunca mais vi o Felipe nem o Antônio. Será que o Vicente já estava velho? Ele tinha um jeito de garotão, mas eu sabia que eram as roupas e o carro esporte. Detalhe: eu ouvi que essa necessidade por carros potentes é só pra disfarçar algum tipo de falta que a pessoa tem. Vai ficando velho e se sentindo incapaz e se esconde no dinheiro e nessa falsa sensação de poder. É. Isso é a cara do Vicente.

As vozes vão aumentando, às vezes. Eu fico com raiva quando ouço umas risadas ao longe. O que mesmo elas querem dizer? Será que eu sou o problema? Eu não consigo entender, sendo que fui sempre o melhor pra você. Enfim, não consegui mais esperar e fui mandar alguma mensagem. As cartinhas não irão mais funcionar. Um recado dentro do livro do Hobsbawm? Era História que você queria estudar, não era?

Não importa. Levei de casa uma garrafa pequena de Jack Daniels e aquelas doses deveriam ser suficientes para me inspirar coragem pra contar tudo pra você. Você iria sorrir ao saber que eu tinha escrito as cartas. Iria se divertir sabendo que eu te seguia até o Lago, Pontão, Shopping, Academia no Setor de Clubes e ficava te vendo dentro do carro lá no Parque. Eu já te imaginava rindo muito. Ia te contar que o Felipe nunca foi grande coisa. Quando as vozes ficaram altas demais, eu o levei pra passear comigo e ele chorava toda vez que eu o queimava com cigarro. Eu falei que fazia mal. Você deve ter falado também. Certeza. O Antônio então, nem se fala. Se fazia de durão, mas, enquanto eu arrancava seu cabelo com a navalha, ele me prometeu de tudo pra deixar ele ir embora. Ele, assim como todo mundo, achava que eu era idiota. Logo eu ia cair nessa?

Eu via o seu rosto sorrindo. Olha. Quase esqueci de contar do Vicente. Eu o encontrei no banheiro de uma suposta “Casa de Shows” em Planaltina. Não tive muito tempo pra resolver tudo certinho. Mas foi divertido ver que ele babava sangue quando eu o abracei por trás e enfiei três ou quatro vezes uma navalha nele. O maldito se abraçou comigo e me sujou muito. Eu tive que sair quase pelado de lá. Maldito! Que vergonha…,mas foi mesmo muito engraçado. Vou tomar mais uma dose pra aquecer. Fico feliz que ainda esteja sorrindo.

Gosto de conversar assim com você. Eu vejo que tudo vale a pena, mesmo você ficando boa parte do tempo assim parada dentro desse freezer sem graça. Não me importo que sua cor esteja mudando tanto nos últimos anos. E nem que esse gelo fique deixando sua aparência próxima a de um morador do Polo Norte. Eu te acho muito engraçada. Conto histórias e leio os textos da universidade por causa disso também. Sei que você gosta. Ainda mais pela paz. E olha, tem foto de você pra tudo quanto é canto da cidade. Até na TV você aparece. Tá certo que tem foto dos outros idiotas também. Felipe, Antônio e Vicente foram os piores, mas você pode ficar tranquila que eu dei um jeito na Patrícia, aquela que se achava melhor que você na aula de dança e no Pedro Henrique também, o filhinho de deputado que não te chamou pra festa da posse do paizinho dele. Eu acho que as vozes acabam quando não sobrar mais ninguém.

Hoje é um dia muito especial. É hora do Eclipse e eu me lembrei que não há um lado escuro da lua. Na verdade, ela é toda negra. Só quero que você se lembre que eu nunca quis matar nenhum deles. Matar. Essa palavra é super demodê. Na verdade, até a palavra demodê é bastante demodê. Calma, vou colocar aquela música que você gosta. “There’s someone in my head but it’s not me”. Tudo certo. Vamos ao que interessa mesmo.

Olha. Ouve aqui. Dessa vez é com você, leitor. Sim. Você mesmo, leitor. Eu sei que pode até não lembrar da minha Eleonora na sala de aula. Mas eu sempre observei o jeito que você olhava pra ela. Falo assim, pausadamente, para não despertar pressa. Não olhe pra trás. Está tudo bem. Calma. Ainda há tempo. Lembre onde estão as chaves de casa. Respire fundo. E lembre-se: se você correr bem rápido, vai ser mais divertido.

Alexandre Bernardo

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