
– Hey, Siri! Tudo bem contigo? Você me ajuda a guardar um segredo?
(Não encontrei resultados para a sua pesquisa. Pode repetir?)
– Hey, Siri! Tudo bem você não reconhecer a minha voz. Eu também já não me escuto mais. Se tivéssemos tempo para nos despedir, o que falaríamos? Faríamos ligações imprevisíveis para as pessoas que a gente ama? Comeríamos um Kinder Ovo? Escutaríamos Sparks vinte vezes? Como é o grito dos desvozeados? Como é o caminhar dos suicidas? Eles avisam? Siri, eu vou pro ChatGPT; você me deixou entediada.
Se eu tivesse a oportunidade de contar um segredo, eu diria que a felicidade sempre me escorreu entre os dedos. A minha mente louca sempre divagou, divagou e divagou. Nunca, nunca mesmo descansou. Isso deve ser tão cansativo… Se eu pudesse dizer algo, falaria que sinto saudade de Casa; de voltar e dizer: ei, cara, eu não consegui não; libera outra ficha aí. Como é o coração dos desesperançosos? Ele bate mesmo ou é folclore? Há uma desconexão. Sempre houve. Não me acoplo, não me defino, não me identifico. Meus silêncios perigosos fecham portas. Meus dentes escondidos fecham portas. Minha testa franzida expressa uma protagonista-figurante-de-si.
Tem pessoas que sorriem melhor dos Outros Lados. Ignorância talvez seja se prender na carne se o que transcente é imortal. O Sapiens passa a vida correndo atrás de felicidade… mas encontra só alegria que escorre entre os olhos e morre no travesseiro. A gente dorme e precisa acordar. A gente come e precisa colocar pra fora. A gente perde tudo o que ama e ama tudo o que perde. A gente corre, corre e nem sabe pra onde.
Se você pudesse dizer algo para alguém, o que falaria? Eu diria que fui miserável, mais miserável que o Victor Hugo, mais infeliz que Capitu, mais desgraçada que Macabéa. Eu diria que fui má comigo e ausente com e no mundo. Liberei minha carcaça seca e miúda para forjar caminhos. Construí fortaleza em cima de areia movediça, de escadas-círculo, de circo-palhaço. Às vezes, sinto sono, muito sono. Sono de Casa. Converso com meus vários eus como se Pessoa fosse. Sou ninguém não, Seu Moço! Sou Severina e só; com o mesmo coração rachado e andança cansada. Você, se pudesse, deixaria suas senhas ou um arquivo no computador escrito: “para quando eu não estiver mais aqui”? Quem sabe dois seguros de vida, dois processos judiciais e três meninas? De quem você engravidaria antes de partir? Talvez bem fosse um jeito de permanecer. Talvez bem fosse um jeito até de ficar.
Mas, guarda segredo tá? A poesia é fingidora, traidora, fantasia. A poesia é uma fdp para os cansados. A gente tentar agir e… ela pede que deixemos rastros. Talvez bem fosse um jeito de permanecer. Talvez bem fosse um jeito até de ficar.
– Mudando de assunto… Siri, como está o tempo hoje?
(27º, com 0mm de chuva, vento a 8km/h vindo do Leste-Nordeste e umidade relativa do ar).
– Ufa! Agora eu fiquei mais tranquila. Você tem resposta pra quase tudo, Sapiens, menos pra morte! E quem tem, quem há de ter, quem quer ter?

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