Orelhão

Orelhão por Cami Russi

Pedalando com meu filhote, viajando e sem pressa. Momento daqueles que a gente aproveita mais a companhia do que o destino. Sou interrompido por um adolescente em busca de informações, me perguntando se conheço determinada escola? Se está perto? Se é naquela região? Como bom bairrista que sou, indico a direção, detalhando as referências. 

“Nesta avenida, logo a frente tem o bar do Juca que a essa hora já está servindo o prato do dia, ao lado do sacolão da Mazé, mas as frutas frescas só chegam a tarde. Depois do segundo quebra-mola, em frente ao orelhão é a escola, não adianta bater, tem que gritar o porteiro. ALCIDES! CIDINHOOO! Tá meio surdo, não fala mal do prefeito para ele. ” 

O garoto me agradece, no seu olhar eu sinto que ele imaginou como seria morar por ali também. Já de saída, ele indaga.

“Mas o que é orelhão?”

Um filme passou na minha cabeça. Como explicar não apenas o que é o aparelho mas a sua função social desde seu lançamento em 1972  no Brasil. o orelhão era mais do que um serviço de comunicação, era muitas vezes o único serviço público acessível em determinada região.Tinha que ter ficha, tipo uma moeda, só que amassada dos dois lados, a ligação desligava e a gente dizia que a ficha tinha caído, o jeito era colocar outra. O cartão magnético, famoso cartão telefônico, foi lançado em 1992 durante um evento mundial sobre meio ambiente. No cartão, as unidades correspondiam a minutos, mas que duravam um tempo menor. O jeito era ligar a cobrar, colocando o 9090 antes do número. Nessa época só dava para passar trote rápido. Para que fique registrado, eu nunca passei trote para bombeiro e polícia, só para alguns colegas de classe, até porque era caro ter telefone em casa e quase ninguém tinha. Durante muitos anos, o orelhão era o telefone da comunidade. A gente atendia e ia chamar quem fosse.  Uma amiga, me revelou que durante o natal, a comunidade rural em que vivia fizeram a ceia envolta do orelhão, assim todos ligavam e atendiam, dando sentido a palavra comunidade . 

Eu não consigo lembrar a última vez que liguei de um orelhão, lembro que durante muito tempo, eu andei com um cartão telefônico para alguma emergência, mesmo nos anos 2000. Os celulares começaram a se popularizar, mas era preciso colocar crédito para ligar. Outra fala popular da época era dizer que o celular era um pai de santo, pois só não recebia. No caso receber ligação, para ligar era na base do cartão no orelhão. 

Eu lembro que quando criança, minha mãe havia me matriculado em uma escola pública que tinha um orelhão Interno,  o que agilizava a comunicação caso ocorresse alguma emergência. As duas vezes que a escola ligou lá em casa foi para avisar que eu tinha passado mal de tanto repetir a merenda.

Com a privatização do serviço de telecomunicações, a concorrência deu uma melhorada no serviço. Na nossa região tinha a Americel e a Tele Centro-Oeste (TCO). O tempo foi passando, novas marcas, mais celulares na mão das pessoas e os orelhões entrando em desuso. 

Lembro que havia um orelhão ao lado da banca de jornal. Essa também está desaparecendo. Assunto para outro dia. 

Retorno para casa, aproveitando a melhor companhia mas olhando as pistas que o tempo está deixando.

Até mais

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