
Existe uma teoria que habita em mim, uma certa curiosidade sobre de onde surgem as coisas. Neste momento estou em uma casa no campo e a cada minuto recebo a visita de um ser diferente. Um pássaro grande, me lembra um pica pau, de penas preto e branco, logo após um pequeno, verde e azul. À minha frente passa tranquilamente uma ave que lembra um pato, esverdeada mas não emite nem som nem se incomoda com minha presença. Nos olhamos e ela segue a vida dela, eu apenas a contemplo. A minha questão é: de onde eles surgiram? Onde estão suas casas? Por que não os vi ao longo do dia? O fim de tarde estava tão propício para nos encontrarmos e trocarmos nossas percepções sobre o dia, qual o motivo de não quererem retornar ao local de nosso primeiro encontro?
A vida tem dessas coisas, em muitos momentos a primeira também será a única vez, por isso é importante aproveitar o instante.
Enquanto escrevo, um vento forte leva a poesia dos pássaros à minha volta. Mas mantém minha inspiração. Continuo a pensar no instante. Tento lembrar de alguém por um momento, não consigo. Mas lembro de uma cena que vi na estrada e não tive agilidade de registrar no celular. Um pássaro dando rasante no céu, pegando uma cobra com uma de suas garras, levando para longe. Eu vi, salvei na mente e acredito que não terei a chance de ver novamente, assim como muitos momentos da vida.
Há um tempo atrás eu levava uma vida corrida. Três empregos dos quais dois eram de professor, ou seja, eu levava trabalho para casa também. Morava longe de todos eles, consumo excessivo de cafeína, pouco foco e muitos compromissos. Me ausentei de meu pequeno núcleo familiar, fiz algumas extravagâncias para compensar o tédio do sábado a noite, já que no domingo, eu trabalhava. Não lembro com orgulho, mas também não me arrependo. Talvez eu tenha perdido muitos instantes que aconteceram frente aos meus olhos mas, hoje eu tento ser um pouco mais calmo e perceber as pequenas nuances, como um simples mudar de vento.
Qual a origem daquele eu do passado? De onde havia surgido? Por que tanta pressa em fazer coisas? Assim como os animais matinais que surgem no campo, creio que nossas personalidades surgem de dentro. De desejos, de crises e do medo. Principalmente o medo de não realizar os sonhos internos. Mas de repente, assim como o vento invernal das nove da manhã que chega do nada e muda toda a paisagem, chega outro alguém dentro de nós e muda tudo. O nosso novo eu, abandona velhas práticas, traz mais equilíbrio, saúde mental e foco nem que seja nas pequenas coisas. A isso devemos ser gratos, renascer em nós mesmos.
Sempre é tempo de repensar o ritmo que a vida leva, quem decide isso somos nós.

Deixe um comentário