
o quarto meio escuro meio iluminado era repleto de órgãos digitais. uma tela grande acusava batimentos cardíacos, níveis de oxigênio, pressão arterial, respirações por minuto, pipipipipi. na cama, assistida por máquinas estrondosas, uma vida antiga ressonava. eu a observava desde cochilos duros sobre o extenso sofá, entre devaneios e sonhos misturados à realidade.
durante a madrugada, pipipipipi, e eu também convalescia, acordando sutis despertares e navegando pequenos delírios, pequenas redenções. já tomou o remédio? ainda não, o menino não trouxe o copo d’água. m’apegava à noite anterior, quando emprestei minha voz a palavras que não minhas e vi dias inteiros raiarem naquele corpo-ocaso envelhecido, cansado de tantas manhãs. a voz é mesmo o órgão do amor. pipipipipipi, lindas auroras. como é lindo, não é, meu filho? é mesmo. muito lindo.
emprestei minha voz a palavras que sequer permito pairarem por perto. há tempo de abraçar, e tempo de afastar. há tempo de amar, e tempo de odiar. pipipipipipi. eu queria um tempo inteiro de amor. é importante saber com quem a gente anda, meu filho. eu queria ser sábio e envelhecer com o mesmo fascínio de quando cheguei nesta Terra. é tempo de raiar, meu filho. você vê a aurora? não, não consigo. pipipipipi. você vê a névoa?
vejo uma vida inteira de delírio misturada à realidade. o tempo escorre lento, água densa. pipipipipi. será que chegarei à superfície, mãe minha? não se esqueça de onde você veio, eu te pari de águas profundas. da lama, do lodo. só depois chegou a correnteza cristalina e a luz te banhou. não se esqueça de onde você veio, meu filho. já tomou o remédio? pipipipipipi. o som da água escorrendo pela goela e gelando o esôfago, o pipipipipi dos batimentos cardíacos digitais. há tempo de matar, e tempo de curar. tempo de prantear, e tempo de dançar. eu dancei a aurora de minha morte. meu pranto curou todos meus dias.
você vê a lama no céu? vejo, vó, mãe. de quem sou filho, se não do barro? dona aurora, você já tomou o remédio? sim, meu filho. engoli seco, mas faz bem não carecer de luxos. pipipipipipi. muito bem. seu coração está feliz, a máquina me contou. pipipipipipi. você vê a lama no céu, mãe minha?
há tempo de matar e tempo de morrer. pipipipipi. há tempo de chorar e tempo de prantear. pipipipipi. há tempo de guerra e tempo de odiar. pipipipipi. há tempo de rasgar e tempo de derrubar. pipipipipi. há tempo e tempo. pipipipipi. há tempo e tempo. pipipipipi. há tempo.
há muito tempo nasci do fundo do rio, meu filho. quando ainda não havia olhos pra enxergar. só barro pra sentir, tocar. você vê a lama no céu, meu filho? pipipipipi. eu vejo, mãe minha. a aurora raiou no meu coração. que bom, pipipipi, que bom. há tempo de perder e tempo de lançar fora. dona aurora, você vê a lama no céu?
pipipipipi. há tempo de amar. é essa a cor da aurora, cor de barro. a textura nos olhos, luz e lama. você vê? pipipipipipi. há tempo de amar. é esse o cheiro do coração, de terra. há tempo de plantar. há tempo de amar. é esse o som, pipipipipipi. há tempo de amar. há tempo de amar. pipipipipipipipi. há tempo de amar. pipipipipipipipipipipi. há tempo de amar. pipipipipipipipipipipipi. há tempo. pipipipipipipipipipipipipipipiipipipipi. há tempo. pipipipipipippipipipiipipipipipipipipipipi. há tempo. pipi. há tempo. pipi. há. pipi. há. pi. há. pi. há. há. há. há.
você vê aurora na lama, mãe minha?

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