“Mas, o doce rosto de Lucy Gray não será visto nunca mais”.

Você conseguiria ler este texto enquanto escuta a canção Lucy Gray (Parte1) na interpretação de Rachel Zegler? Sei que pode dar um pouco de trabalho. Afinal, você nem queria estar aqui, assim como eu. Estamos, porque fadados ao fracasso, nos resta apenas existir. Aí a gente vai folheando alguns livros, montado uma playlist de merda no Spotify e visitando alguns sites de academias de ninguéns.

Eu conheci uma Lucy Gray. Não foi somente o Snow. Eu já estive naquela floresta; no lago também. Eu perdi meu nome, endereço, algumas roupas e a dignidade. Fumo pelos cantos e bebo em sorriso largo a vida-morte que ganhei num bilhete des-premiado da loteria federal.  Mas, o doce rosto da minha Lucy Gray, nunca mais vão conhecer. Nem nas fotos, nem nos versos. Somos outras já. Uma em sete abaixo do chão; outra, sete acima, mais perto do céu? Que nada! O céu é invenção. Tudo o que a gente assistia no cinema virou história real. Que curioso, minha Lucy Gray. Se soubesse, jamais teria te levado àquela sessão. Foi de lá a ideia do lago? Foi de lá a ideia de sumir entre as folhagens e me deixar procurando por seu corpo que simplesmente evaporou?

É mesmo um jogo voraz, a vida. Oh, Lucy Gray… Oh, minha amada. Eu te amaria por mais sete vidas. Quando não tivesse mais nenhuma, eu fundaria o meu próprio mundo, para ser Deus de nós e nos acolher por toda a eternidade, em sete mil outras tentativas de fazer escultura-amor. Lucy, não me deixe assim, derramada nessa cama como se fosse fumaça. Qual é a possibilidade dessa história ser apenas cinema?

Eu estive lá, naquele lago gelado. Eu te procurei como um Snow. Eu enlouqueci. Eu gritei. Lucy, qual foi o nosso azar? Lucy, qual foi o nosso azar? Lucy, qual foi o nosso azar que juramos um dia ser sorte? Qual a possibilidade de eu chegar em casa e te encontrar no nosso sofá quentinho, abraçando nossas filhas? Lucy, qual foi o nosso azar? Qual foi?

Não escuto pássaros cantando por aqui.

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