Carta à Maria

Valparaíso de Goiás, 10 de agosto de 2021

Maria,

Há alguns dias, inesperadamente, você invade meus pensamentos e, cada vez mais, isso está me desestabilizando. Já quebrei alguns copos e queimei algumas receitas. Eu estou naquele processo de auto-observação, sabe? Para entender os gatilhos que me trazem você, mas está tão difícil reunir esses dados, porque a impressão que eu tenho é que é mais fácil perceber quando não estou pensando em você, há menos ocorrências. 

Dentre algumas coisas que já observei é que a música daquela nossa cantora favorita, lançada mês passado, mudou alguma chave dentro de mim. Recuperou algumas dores, alguns constrangimentos e aquelas “brincadeiras” suas que ia me definhando e você agindo como se tudo fosse culpa minha. Tem hora que essas lembranças são tão vívidas que eu me sufoco, meu corpo parece reagir de maneira tão real, que eu preciso apertar bem forte os olhos para retomar a consciência. 

Consciência… repeti tanto essa palavra pra você, igual como quando éramos crianças e repetíamos insistentemente uma palavra específica, por alguma brincadeira boba de criança, que chegava uma hora que não fazia mais sentido. Já aconteceu com você? Algo perder o sentido depois de tanta insistência? Tanta repetição? Acho que esse é mais um gatilho que me remete a você. Insistência. Repetição. Você não foi capaz de refletir sobre os machucados que, insistentemente, cravava em mim. E às vezes, num momento de auto culpabilização ou de síndrome de impostor, tentava me convencer que EU não estava percebendo suas tentativas de mudar, que os SEUS erros eram justificados pela MINHA “sensibilidade exacerbada”. Era esse termo que você utilizava, né? Ah, também tem a famosa: “As pessoas estão olhando, pare de chorar. Você está me matando de vergonha, não é homem não?”. 

Eu só queria me convencer que você não tinha ciência de como me machucava. Como se tudo fosse um equívoco e que EU não soube expressar. Eu esperava que em algum momento eu iria conseguir fazer com que você percebesse que estava me apagando. Mas você não QUERIA perceber. Não queria perceber que eu já não sorria como antes. Que aquela euforia que eu sentia com as pequenas coisas, já não era mais minha marca. Que eu estava cada vez mais isolado das pessoas, uma vez que eu sempre amei estar rodeado delas. Olha pra mim, Maria. Eu tive que juntar cada pedaço meu que você espalhou com desleixo. Há alguns pedaços que já desisti de encontrar e ainda assim, me refiz. O produto final é isso. Só isso…

Maria.

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