Amor Cupim

Adormeci com um cupim nos olhos. Quando acordei, ele estava na minha garganta. Tentei lavar, esfregar e ele não recuava. Estava determinado a comer o meu amor. Sabe aquele amor pelas viagens, pela vida, pela poesia? Ele estava decidido a arruinar. Ao me olhar no espelho vi só um pedaço do meu rosto; também já estava se desfazendo. Vesti as roupas enquanto podia. Tentei lavar, esfregar, mas ele se agigantava. Não parecia mais um cupim. Parecia o amor. O amor que eu conheci. O amor que eu gostaria de desconhecer. Quando percebi, ele já estava nos meus bolsos. Tive medo de ficar nua. Ficar nua é tão complicado. Vez ou outra minhas palavras inventam de tirar as roupas. Elas não têm vergonha na cara nem no corpo. Eu tenho. Evito me expor. Senti o cupim apertar meu peito como uma mordida. Não sabia se era uma ofensa ou uma oportunidade. Explico melhor: eu estava mesmo curiosa para saber como estava o meu coração. Estava amassadinho, chorando amuado. Eu tentei conversar com ele, mas estava tão fraquinho. Batia num descompasso só. Em alguns momentos parecia nem bater. E eu fiquei até feliz, sabia? E se ele parasse logo de uma vez? Bastava costurar o peito por cima. Aí me lembrei que o cupim já havia comido o peito também. Com coração exposto, quem visse poderia se assustar. Poderiam temer ter igual ao meu. Eu vi meu coração. Amassadinho, amassadinho. Nem arnica resolveu. Fiquei observando e pensando de que forma poderia ajudá-lo. O cupim começou a comer meus pensamentos também. Aí parei de pensar. Poxa, achei até bom. Pena que durou pouco. Foi o fim do cupim. Meus pensamentos tão mais fortes, se comoveram por mim. Comeram o cupim. Fiquei feliz por um momento. Alguém havia parado com aquilo por mim. Eu não consegui. Mas, eu estava sem vários pedaços. Alguns bem importantes até. Os pensamentos não eram heróis. Eram novos monstros; mas eu nem conseguia lavar, esfregar. Eu vou pedir pro cupim voltar.

Deixe um comentário

Leia também:

Caminha

Os artistas nunca paramos de trabalhar, porque estamos todo instante a criar. Cuando uno se pone en estado de observación y lo entiende, lo extiende hacia todos los puntos y momentos de la…

Continuar lendo…

A Despedida

A despedida Ela começou severa, mas como gelo no asfalto quente, auge de janeiro, foi se desmanchando. Não foi por engano. Até mudou de cor. Foi aquele olhar que congela. Fez-se incêndio em…

Continuar lendo…

Ocorreu um erro. Atualize a página e/ou tente novamente.