ESCREVÊNCIA – PRODUÇÃO DAS PARTICIPANTES – DIA 2

Seguem alguns textos criados durante o segundo encontro do curso no dia 24 de fevereiro de 2024. O objetivo principal é possibilitar às participantes a oportunidade de transformar experiências pessoais em expressões artísticas e poéticas. O encontro foi conduzido pelo acadêmico Lucas Souza.

“Escrevo porque a poesia é o milagre da participação na vida e isso não cabe em mim.” Sabiá Canuto

Não cabe em mim, pois o milagre está no que sai e ao sair encontra o ar, a nuvem, o menino.
Escrevo e leio e descrevo, minha caneta é nanquim, minha folha é qualquer superfície.
Escrevo, as letras são muitas, é um abecedário e eu me esbaldo.
Troco-as de lugar, me encanto com algumas, apanho outras tantas e as ponho no lugar.
No lugar de bula, do obituário, dos bilhetes, das cartas de amor.
Ah! Eu amo cartas de amor, eu as escrevo e nelas existem também muita dor.
Existe saudade, existe um descrever do outro.
Como é mágico, vemos no outro o que não temos em nós; por isso, é amor!
Ah! Eu escrevo a mim e para você, então lhe proponho uma prosa, uma troca, dê a mim as suas palavras, que lhe darei um pedacinho de amor!

Anna Costa

Lá se vai a escrita, buscando o papel para assim ser dita, chega a ser distinta, muitas vezes até mal compreendida.
Ditas muitas vezes em vão ou deixadas para trás como quem faz mansão ao seu ao seu desprezo, seu rejeito.
Escrevo em partes, em arte, às vezes nem sei direito se devo, se deixo o falar, ou me calo no pensar.
Outrora se faz necessária, para manchar seu papel no espaço de cada um que ali a compartilha.
Não se sabe ainda as ditas ou as rimas, só sabe quem leu, e importância a ela se deu.

Zélia Fernanda

O barco. Óleo sobre tela. Salvador Dalí. 1942

O meu barco quer seguir em frente mas vem o vento forte e as gigantescas ondas do mar que o leva em outra direção mudando assim o seu percurso tento com toda a minha força mudar novamente a direção mas percebo então não é a minha força que conduz o barco mas sim as ondas gigantes do mar que nem se quer perguntam onde eu quero ancorar

Dorinha

As ondas turbulêntas do meu pensar me leva a um local nada convidativo, a cada hora passada a cada pôr do sol, sinto a maré aumentar e sem mais nem menos é inevitável não ir a aquele lugar. Onde o corpo é escravo, a mente pirata, pirata de tanta sabotagem.

Estar nesse lugar é o mesmo que afundar. Meus olhos se perdem na imensidão desse mar, tentando somente me tirar de lá.

Bru


Chão de Sombras
O sol brilha forte no chão desta manhã.
Os olhos descobrem palavras que brotam da folhagem do meu jardim e
o lápis desenha silhuetas incompletas.
A visão se alterna entre as linhas rabiscadas no papel
e as cores vivas que se mostram à minha frente.
Nem o desenho, nem as palavras
são capazes de registrar as sensações que se refletem no chão.
O que eu perco ao mergulhar nesta contemplação de sombras?
Talvez a cor da borboleta que agora vejo sobrevoar.
O trajeto do seu voo atravessa a minha escrita zig-zagueante e o meu traço incerto.
O vento sopra, balança as sombras e transforma o que eu vejo em escrita.

Belister Paulino

Concebo um milagre: viver!
Pois, nem sempre foi possível cantar a vida em versos
Medir poeticamente sua existência.
Queria muito tê-la romantizado…
Mas, mesmo assim, extraordinário é viver
Sentir, perceber cada momento
E, no final, sentir seu poema
Sim! A poesia existe.
Invisível, mas existe.
Por isso, talvez, seja tão difícil escrever sobre a vida:
Existir demanda atenção, silêncio
Mas, também, exige grito, libertação.
Caber em si, é também espraiar-se, sumir-se, expandir-se
Só assim, eu acho, será possível finalmente cantar a vida em versos,
Enfim, viver.

Luzineide Ribeiro

Sou barco a vela temendo a tempestade,
Mas é preciso me atirar ao mar.
Aventuro-me no caminho
Em busca de um porto seguro.
A despeito das amarras que me tolhem, permito-me encarar meus medos,
Certa de que além do que tenho vivido,
Algo melhor me espera.
Encho-me de coragem e vou.
Quem poderá me deter?



Não sei escrever em fluxo. O que é isso mesmo?
Gosto de me sentar em silêncio e deixar que as palavras venham lentamente até mim, tecendo teias que às vezes, só eu consigo entender e amar.
Amo minhas palavras
Às vezes desconexas, às vezes reveladoras.
Me surpreendo ao ouvir um sussurro a me ditar as palavras que vêm do fundo da minha alma.
Não consigo apressá-las ou envolvê-las em um fluxo contínuo; apenas espero por elas e acolho-as amorosamente.

Angela

Em folhas em branco, miragens dançam
inacabadas,
desalinhadas,
Entorpecidas pela concepção,
buscam o vir e vir e vir, incessante fluxo
Até que se queimam em matrizes de silêncio e inação.

Desesperadas, perseguem um reciclo,
infindo ciclo,
Num serpentear contínuo,
almejam alcançar seu destino.

Paralisia inquieta,
Silêncio, deixe-nas ir
na mente renascer
no papel e caneta do artista.

Deixe que a quietude se torne poesia,
ressignificando a solitária
trágica odisséia da vida.

Um delírio desenhado, em palavras se faz grandioso
em cada linha, um eco da mente em ação.

Um poema nascido do caos e da dor,
a mais pura sublimação em esplendor.

Niél Sàlim

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