Tétis

Invoquei Tétis, Enki, Anuket, Oxum, Poseidon, Aegir, Chalchiuhtlicue, Kanaloa. Li Caio Fernando de Abreu, Clarice e Bukowski. Implorei a Freud, Chico, Nietzsche e a todos os santos que imprimem letrinhas no papel. Convoquei os Erês, Caboclos e Exus. Éramos muitos e todos naquela noite chuvosa. O coração não batia; cavalgava. Pernas em descompasso que se entrecruzavam entre as matas, águas muitas, ventos outros. Um paradoxo entre caminhar rápido e encontrar devagar. Um abismo entre perímetro e encontro. Um conta gotas, ampulheta de tempos escorridos entre os dedos.

De repente, não mais que de repente avista-se a matéria cinzenta que se busca por longas quatro horas humanas. Encontra-se e, esponjosamente, se aninha no peito a esperança do resgate. De quem? Estávamos todos mortos. Olhos aflitos em busca das cinzas, do mote da vida.

es pe ran ça.

Era apenas prenúncio do caos. Palpitações cerebrais anunciam o que se seria o rompimento com a razão e com a fé e com a vida. Era apenas o desenho de pernas bambas, gritos vários, desmaios e bocas secas. Eram gritos tão agudos, tão aquosos, tão videntes. Um contragolpe de pá de terra ríspida; um contragole da água que encharcou os sorrisos.

Massagem cardíaca, hipotálamo, sirenes, Coldplay. Eu poderia jurar que já havia escrito isso antes. Um déjá vu do caralho que me espanca em raiva e medo e nó. Eu poderia jurar que meus braços alcançariam o teu corpo. O que mais queria era segurar tuas mãos, colar meu corpo quente no teu, frio; dar-te o beijo em respiração de boca em boca que te traria à vida. Um pulsa e morre de movimento torácico de mais de 90 minutos. Não havia ar; nem em mim, nem nela. A substância aquosa sucumbiu.

Sirenes, ambulâncias, onomatopeias.

Respondeu. O coração acordou, mesmo com os olhos fechados. Os olhos permanecem fechados. Desespero. Mas, o coração acordou. Substância aquosa sucumbiu. Quatros rodas encaminham rumo a Tétis. Salvamento. Salvamento?

Sussurros. Onomatopeias. Enki, Anuket, Oxum. Todos. Ajudem. Jaleco branco. Mensagem. Preparação. Reluto. Insisto. Jaleco branco não trabalha com a fé. Eu sim. Erês, Oxum, Exu. Trabalho. Resgate. Substância aquosa sucumbiu.

22:04. Ausência de batimento cardíaco. Hipotálamo sucumbiu.

Desfaço. Morri. Emudeço. Enki, Anuket, Oxum, Tétis. Afoga-me. Salva-me. Salva-me? Quem? Substância aquosa sucumbiu. Miúdos de nadas. Como eu termino esse texto?

merda, Tétis.

Uma resposta para “Tétis”.

  1. Avatar de SIMONE CHRISTINA DE SOUZA FERNANDES
    SIMONE CHRISTINA DE SOUZA FERNANDES

    Sem palavras….aperto no peito pela total incapacidade de socorro. Mas a fé e o amor jamais sucumbirão. Mera existência ainda por aqui…sempre a servir. Beijos na alma.

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