FELIZ DIA DO POETA!

Escrevo porque sou obrigado. A poesia me pega pelo cangote e me esfola na parede chapiscada do beco escuro da minha mente. Desmorono. Me esfarelo. Tento ignorar, de que adianta?, adoeço. Me invade frequência outra. É lua nova, é ansiedade, é flashback amoroso desencaixado. Tantas desculpas esquivam a única verdade: é poesia. Adoeço-me de palavras inescritas. De nada importa a fala – meu órgão de escrever incandesce, chama, grita, toca cada célula e me evapora a paz. Escrevo por alguma dívida kármica. Nenhuma glória poética compensa o peso de ser poeta. Nenhum reconhecimento, prêmio ou aplauso. Tudo vaidade e vaidade é vento vazio, ausente de movimento. 

Escrever é sangrar o peito com a ponta afiada do lápis. E rir-se de delírio, banhando em sangue tinto, tinta da alma. Há um peso milenar em minhas palavras. Desconheço-me a cada novo texto. Tanta luz brilha pois encaro diariamente multitudes sombrias; o avesso do meu sorriso é lâmina de faca. A ponta da adaga enferrujada. O ápice da espada em queda, perfurando os olhos do coração. Como enxergar? Como seguir se cada dia se arrasta sobre mim? O tempo sorrateiro inventa estratégias para me tropeçar; agora, dilatado, me esmaga nos dedos da impaciência. Hei de aprender a esperar. Hei de aprender que aqui e agora são louvor. Hei de respeitar e honrar minhas decisões mais profundas. 

Quanta tinta já me escorreu. Como conectar a vida que sou com aquela que almejo ser? Como caminhar meu caminho, descobrir meus passos sem me prender? Só se acha quem se perde, livre, solto na floresta encantada o monstro a me rondar. Sem face. Invisível. Intangível presença assoladora. O que sou senão escuridão? Surpreende-me enxergarem luz. Pois neste exato momento o orgulho me dá uma rasteira e a alegria se exalta em vaidade, vazia ventania. O que sou senão vento? Poeira de estrela arrastada em fluxo irresistível, maré e tempestade. Sou movimento. É essa verdade a sempre me salvar. Me mexo para fugir ou para me encontrar? Movimento não tem porquê, simplesmente sopra, brisa e ventania. O ar me acompanha hoje. Já fui terra, fogo, água. O vento me move, moinho que sou. O vento sou, respiração. O pulsar é feito de vento. A tempestade me assusta quando sopra forte. Não temo a água, mas o furacão. A mudança me assombra quando repentina. O fogo me coze lento, me acostumo ao ardor. A ventania me arrebata, gira e inverte tudo de lugar. Quando desperto, sou completamente outro. Ajo de acordo. Vento, me abençoa. Eparrey oyá. 

Escrevo porque algo em mim se move mais forte do que eu. Escrevo por falta de alternativa. Escrevo não pra posteridade, mas pela imensa urgência do agora, pelo tamanho do presente que me habita e nos conecta todas. Temo ignorar a grandiosidade e abraçar o medíocre. Hoje estou feito de vaidade, ela me apequena perante a imensidão do meu infantil desejo. Só espero estar caminhando uma jornada bonita, coerente com o coração de meu espírito. Só espero não desperdiçar esta manifestação única de experiência corporificada que me foi presenteada. Espero honrar minhas vidas e acordos passados. Por mais que eu não acredite, a fé transparece em minha escrita. É profunda e habita um espaço primal deste ser. A fé mora no meu corpo, mobiliza sensações – traduzo-as em palavras. Escrevo pois é de letra minha espiritualidade. E cada vez mais perto me vejo de saltar penhasco adentro: escrever apenas. Viver viajando em estado de poesia. Como unificar tantas vidas em uma só existência? Paciência. E só.

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