
Já não sou o mesmo, mas mesmo assim, sinto que pouco mudei desde há muito tempo. Sinto-me profundamente cansado de repetir as mesmas questões e questões e questões que questionam em quantidades quase absurdas até mesmo o existir da minha essência. Mudar, mudar mesmo, só de tempo, gênero e nome. Eu, eu mesmo, permaneço um pouco parecido com antes, mas já não sou o mesmo. Sou, na verdade, uma coleção de existências, algumas mais curtas do que outras, umas mais longas do que eu desejaria que tivessem sido. Já sei que sou eu mesmo que escrevo estas palavras, como que afirmando que sei quem sou. Mas essa é uma questão complexa, pois que há várias formas de dizer quem se é, pois que ninguém é só de um jeito.
Adentrei as sombras de mim e não senti medo ou receio. Pensei: “Ah, mas a sombra é algo ruim,” e elas olharam de volta para mim e disseram que não, que não eram ruins. Eram parte de mim, da minha trajetória. Não há profundidade sem a sutil diferença entre claros e escuros. Não há luz no fim do túnel nem no fundo do oceano, mas, nem por isso, ao afundar devagarinho na imersão sombria inerente à existência, me torno todo sombras. Lá, deitado sozinho na escuridão dos meus pensamentos, surge a poesia, a luz se faz, e vejo tudo que sou. Não há sombras se não há luz.
Já não sei mais o que escrever sobre mim. Parece que já gastei toda a capacidade de auto-reflexão que tenho e não consigo mais. Mas não, quanto mais eu olho para dentro, mais eu descubro sobre mim e, talvez um pouco cansado do reflexo e das coisas não tão boas que acabo vendo pelo espelho da minha alma as questões de ser humano e estar vivo na Terra. Um pouco saturado da autoanálise e autorreforma… Mas não sei se a alternativa do endurecimento e fossilização dos comportamentos depreciativos me apetece.
Ser humano é viver e morrer, e morremos e vivemos todos os dias, toda hora, cada segundo repleto de findares de vida e recomeço da morte. Sou o agente da transformação e, ao mesmo tempo, obsoleto. Deixo de ser e simplesmente sou. Metamorfo, talvez humanalien, terráqueo das estrelas, cigano do espaço, peregrino interestelar.
Texto produzido no Curso Escrevivência.

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