Doces de Halloween

Uma figura de negro se esgueirava nas sombras. No silêncio da meia-noite ninguém estava ali para notar aquele vulto indo pelos cantos mais escuros até seu destino. Aquilo levava algo nas costas, que devia ser pesado e difícil de carregar, pois parava e ajeitava seu fardo, olhava se não havia ninguém e seguia com dificuldade.

O padeiro chegava pelos fundos da padaria para começar seu ofício. Ele vinha apressado, como sempre. Ele odiava aquela data. A noite seguinte seria halloween e ele sempre tinha mais trabalho nessa data. Tinha que preparar doces extra para dar às pestinhas, para que a padaria não fosse alvo das brincadeiras de mau gosto dos diabretes. E também havia as encomendas para as festas nas casas dos ricos. Ele não via graça ou motivo, mas o dinheiro era bom, então ele trabalhava desde a meia-noite do dia anterior para aprontar as coisas.

Ele olhou para os lados pressentindo uma presença, mas não viu ninguém. Virou-se para abrir a padaria e tudo escureceu, ele caiu desacordado.

Quando ele acordou estava amarrado num canto da padaria e uma figura sinistra fazia alguma coisa pela padaria. Ele gemeu e… aquilo se virou para ele.

Era alto e magro, com buracos no lugar dos olhos, um nariz enorme e orelhas estranhas que se mexiam como orelhas de gatos. Tinha garras nas mãos e pés. O padeiro arregalou os olhos em terror, mas estava amordaçado e não pôde dizer nada.

A coisa o ignorou e seguiu trabalhando. Ele estava fazendo doces! Na verdade, eram as encomendas do padeiro! Mas ele colocava algum ingrediente diferente. Ele retirava de um saco e colocava porções daquilo nas receitas. O padeiro, num misto de horror, medo e curiosidade, continuava observando. O ser misturava o ingrediente de consistência viscosa e aspecto repugnante nas massas dos doces. Imediatamente o ingrediente era absorvido e o resultado final era idêntico ao doce normal! O padeiro se desesperou! Aquela criatura ia envenenar todos na cidade!! Era uma bruxa!!

A bruxa apagou o padeiro novamente, pois ele gemia e se mexia, irritando-a. As horas passaram e a criatura terminou tudo e arrumou as encomendas, os doces que seriam distribuídos e as vendas do dia antes da noite das bruxas. Então, aquilo farejou o padeiro e uma baba começou a escorrer da sua boca murcha e preta. Uma bocarra se abriu e a coisa engoliu o padeiro sem nem mastigar! Aos poucos, em movimentos convulsionantes, aquilo começou a mudar e se transformou no padeiro!! Era um espetáculo pavoroso, mas sem expectadores.

Totalmente transformado ele recolheu os restos do saco que continha a gosma que o padeiro vira ser adicionada nos doces e comeu lambendo cada restinho. Era uma poção de cura, na verdade.

Há séculos aquela cidade fora envenenada por um feiticeiro do mal e todos passaram a ver as coisas boas, como se fossem ruins. Tinham alucinações com criaturas malignas e as caçavam e matavam. Assim, tinham praticamente eliminado os clãs das bruxas e as criaturas mágicas da floresta encantada. Haviam mantido as festividades de halloween como um escárnio, onde comiam doces e depois saíam para caçar bruxas. As crianças batiam nas portas, fantasiadas de criaturas horríveis, pedindo doces ou fariam travessuras!

Melinda, que agora estava disfarçada de padeiro, era uma das últimas bruxas de seu clã, o Clã da Vassoura. Sua avó, ela e sua mãe haviam preparado a poção por seis outonos e finalmente ficara pronta. O ingrediente final tinha sido o olho de Salatrino, o bruxo que envenenara aquela cidade. Melinda o caçara por décadas e finalmente, em uma luta onde ela se mostrara como uma enorme serpente negra, ela arrancara-lhe o olho e fugira. Salatrino não morreu, mas fugiu e não seria mais visto por alguns séculos. Ele aprendera a não provocar as bruxas!

O dia amanheceu e Melinda, ainda vestindo a pele do padeiro, entregou encomendas, distribuiu guloseimas e vendeu doces, garantindo que cada homem, mulher, criança e até os bebês e recém nascidos ingerissem sua cota da poção dentro dos doces. Quando absolutamente todos haviam comido, ela regorgitou o padeiro e deu a ele um doce especial, com as lembranças dela sobre o dia de trabalho. Ela deixou o homem adormecido nos fundos do estabelecimento e saiu silenciosamente. A noite das bruxas foi calma e silenciosa com a cidade toda adormecida.

No dia seguinte todos na cidade vomitaram uma gosma negra malcheirosa. Era o veneno de Salatrino, que era tão poderoso que passava de geração em geração!

As pessoas então, que haviam adormecido após comer os doces mágicos, começaram a vir para as ruas. Melinda estava sentada num banco na praça e aguardou.

Uma criança veio até ela e perguntou:

-Moça, como é o seu nome?

Melinda sorriu. A criança a enxergava! E não como uma criatura horrenda, mas como uma mulher comum! Tinha dado certo!!

-Melinda- Disse ela para a criança que sorriu e saiu saltitante.

As pessoas foram voltando aos seus afazeres e Melinda voltou à floresta. Havia paz para as bruxas e criaturas mágicas novamente. A maldição de Salatrino havia sido quebrada. Melinda montou na sua vassoura e riu uma alta risada de bruxa. Todos olharam o voo dela e acenaram felizes. Afinal, as bruxas são, sabidamente, criaturas boas, curandeiras, cosmetólogas, artesãs, parteiras, sábias e filhas da natureza e todos amam as bruxas!

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