505

Conto selecionado como um dos vencedores da “Coletânea de Contistas Contemporâneos 2023” da Editora Persona.

Confesso que minha ligação com aquele quarto começou bem antes de ali chegar. Eu já o conhecia antes mesmo de o conhecer e isso foi ficando bem claro na minha cabeça confusa. Desculpe. Não quero te confundir. Quero que você entenda bem tudo o que se passou, pois desse modo talvez eu ainda possa salvá-lo. Não tenha medo. Segure firme na minha mão e ouça minha voz. Se precisar, eu posso falar mais devagar.

Meu amor pelas palavras e pela fantasia já vieram antes mesmo da leitura de Lovecraft. Se “At the Mountains of Madness” me cativou e “The Call of Cthulhu” me mostrou um pouco do significado do medo, o certo é que as palavras já me despertavam todo o tipo de sensações antes mesmo disso tudo. Eu adorava me sentar para ler livros enquanto eu ainda não aprendia o significado de nada daquilo. Meus pais me incentivaram, pois eu ficava quieto enquanto folheava os enigmas contidos ali em folha.

Tempos depois eu me entregava a todas as leituras disponíveis em casa e na biblioteca da escola. Na verdade as opções eram poucas, pois era mais um depósito de livros usados e não existia nem mesmo carteirinha, mas a moça simpática da recepção foi com a minha cara e me deixava levar os livros mediante a uma promessa de vida ou morte qualquer. Muito simples. Nesse período eu pude encontrar os mestres Tolkien e Lewis e tive tempo de me apaixonar por cada uma de suas criaturas. Cresci. Mas o pensamento que o mundo era mágico permanecia em minha mente.

Cheguei na faculdade deslumbrado pelas aulas magníficas e mentes absurdamente geniais de meus professores, mas gastei muito mais tempo nas conversas com as meninas, creio eu. Dominei a arte do flerte sem perceber, pois todas as conversas acabavam na mesma cama. E aí começa o meu problema. Era a mesma cama em que sentava para ler meus livros. A mesma cama em que escrevia nos cadernos. A mesma cama do quarto 505. Calma. Você vai entender.

Conheci uma poetisa chamada Louise. Tinha olhos de tristeza e beijo de vulcão. Era avassaladora em debates e um ar de menina mais velha, o tipo que domina de fato a arte da vida. Ela tocava baixo numa banda da faculdade e andava pra cima e pra baixo com uma hardcase para proteger o instrumento e estampava “Arctic Monkeys” em 90% de suas camisas. Estimativa minha, obviamente. Um amigo destacou que ela parecia estar vendendo produtos e só usava roupas fazendo promoções de coisas. Filmes, bandas e times de futebol. Eu adorava.

A primeira vez que saímos juntos eu precisei me desculpar por ficar encarando a menina sem parar. Ela era a cara do golpe e não parecia nada nada no meu nível para estar ali. Ainda teve a audácia de dizer que eu também era bonito, mesmo que isso não fizesse o menor sentido. Sentamos juntos num pôr do sol, falamos de sonhos e de viagens e trocamos beijos breves e intensos. Ela levava uma tatuagem no ombro com esse dizer. Tomamos sorvete e depois de um beijo gelado de chocolate, ela me pediu uma canção.

Não consigo lembrar se de fato pediu. Talvez ela tenha dado a entender ou mesmo eu tenha te prometido um poema por estar com calor demais em meu coração. Aconteceu que naquela noite busquei meu caderno velho, deitei na cama e escrevi para minha menina e só na minha canção-poema me veio o número que ela levava na camisa: 505. Eu que não conhecia muito das suas bandas, procurei nos aplicativos de música e terminei ouvindo “Favourite Worst Nightmare” no repeat até dormir.

Dia seguinte eu não a vi. Voltei pra minha cama e continuei a trabalhar na minha canção. Mudei o nome para “Quarto 505”, pois em um trecho um pouco mais picante eu sonhava com uma viagem só nossa para o Rio de Janeiro. Dormi dessa vez ouvindo o “AM” sem parar. Dia seguinte, perguntei dela para alguns amigos e amigas. Nada ainda. Agora eu só conseguia ficar triste ouvindo “Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not”. Não a encontrava de modo algum.

A polícia bateu na minha porta no terceiro dia. Perguntaram dela pra mim e eu comecei a ficar desesperado. Disseram que ela tinha sido incluída no cadastro de pessoas desaparecidas e pareciam bastante desconfiados de que eu tinha dado um jeito de desaparecer minha menina. Nem era já minha menina. Estava inclusive bem distante de ser, por mais que eu sonhasse em beijos mais próximos e em uma chance de entrar devagar pelo seu coração.

Eles a encontraram no córrego que dividia a parte norte do sul da cidade. A investigação parou de me procurar e fecharam o caso como solidão e mal da modernidade. Eu não aceitei, claro. Mas fiquei bastante fraco para tentar encontrar novas respostas. Terminei meu curso e tratei de sair logo dali. Uma vaga num jornal de São Paulo surgiu e eu com dinheiro rumei ao Rio para assistir o show do Arctic Monkeys na Jeunesse Arena. Era a turnê de “Tranquility Base Hotel & Casino” e saí de lá pisando em nuvens.

Dividi a corrida com um casal para chegar ao hotel. Peguei as chaves e fui já bem cansado procurar um banho quente e uma cama agradável. Cheguei na porta e não consegui abrir. Fui reparar na chave e não era bem chave de fato. Era um cartão de acesso com dizeres que eu não conseguia decifrar. Senti que eu era de novo criança folheando os livros sem saber ler. Na base do cartão estava “505”. Olhei para o número e constava também “505”. Sorri por dentro e lamentei o fato do universo me fazer chorar naquele dia.

Limpava os olhos quando uma moça apareceu no corredor, perguntava pra mim se estava tudo bem e se ela podia fazer algo para me ajudar. Eu balancei a cabeça e fugi sem conseguir me expressar bem sobre o que acontecia. O cartão funcionou e a porta abriu. Entrei no quarto 505 e me deparei com a minha cama ali colocada no escuro. Pensei que era justamente por isso e corri com o cartão para a porta. Coloquei no local de ativação das luzes e todo o quarto se clareou em amarelo.

Era minha cama. Era definitivamente a minha cama. Eu me sentei com cuidado e fiquei refletindo se deveria ou não sair dali. Deitei. Esperei mais e mais. Nada aconteceu. Aumentava só a minha vontade de ficar ali. Pensava em me levantar para tomar um banho, mas não vinha a coragem necessária para levantar. Procurei embaixo da cama e encontrei um de meus cadernos. O caderno do quarto 505! Reli a canção e pensei em Louise. Adormeci assim.

Quando já raiava o dia, fui me levantar e algo me chamou atenção em cima da cama. Alguém tinha entrado comigo no quarto. Tinha uma toalha molhada ao meu lado e eu sabia que não tinha tomado banho nem nada. Ouvi a porta do banheiro abrindo e a menina apareceu na porta e disse: pode vir. Sua vez. Eu levantei no susto gritando e correndo pra me esconder atrás da mobília. Não entendia. Achava lindo a visão e situação, mas me desesperava e perguntava o que estava acontecendo sem parar.

Você não acha mesmo que ia morrer e te deixar, não é, bobo? Ai ai… A gente ainda tem tanto pra viver. Mas aconteceu que eu estava passando por algumas coisas e tive que sair de perto de tudo. Eu te vi no show e te segui. Sabia que tudo ia dar certo dessa vez. Eu ainda a questionei. Encontraram seu corpo no córrego, mano. Encontraram. Saiu em todos os perfis de fofoca da cidade. Ela disse que isso falava mais sobre o trabalho da investigação do que sobre ela. Alguém bateu na porta. Ela disse que tinha o mês livre e que podia ficar aqui o quanto eu quisesse. Eu pensei nisso, olhei pra ela e analisei o quanto o meu cartão de crédito me permitia sonhar. Entreabri a porta e entreguei o cartão. Pode cobrar as demais diárias, por favor. Aproximação. Isso. Estou num projeto importante e vou precisar trabalhar esse mês daqui mesmo.

Voltei para o quarto e tomei o merecido banho. Retornei para a cama e tive meus melhores momentos da vida até ali. Sentamos depois lado a lado e mostrei a canção do “Quarto 505”. Ela ria e dizia ser brincadeira do destino colocar a gente no quarto 505 juntos e de novo. Que momento, meus amigos. Que momento. Falou da sua banda e da tristeza em precisar largá-los. Comentou sobre a iluminação do show e reclamou ter comprado o ingresso da pista. Era tão perto das cadeiras da arquibancada e seria tão mais cômodo assistir tudo sentadinha e sem dor na coluna. Eu ria e a abraçava.

Chegava comida e eu pedia sempre que ela fosse buscar. A menina parecia não comer há tempos, porque todo prato que chegava era devorado tão rápido. O primeiro ela comeu em tamanha velocidade que não deixou nada pra mim. Pediu desculpas, mas culpou o cansaço do show. Acontece, meu bem. Acontece. Deita aqui e continua juntinho de mim. Perto e mais perto. Escrevi algumas novas canções junto dela. Mais comida chegava. Ela sempre com fome e eu sempre inspirado. A gente vivendo de amor e de quarto 505.

Até que chegou o dia em que adormeci. Deitado junto de Louise e pensando na minha poetisa de beijos breves e lábios de vulcão. Agradeci a ela por ficar do meu lado de novo. Ela sorria e dizia que sentia muito. Mas que era o único jeito de permanecer viva. Mas prometeu que para sempre iria lembrar de mim. Eu repetia. Acontece, meu bem. Acontece.

Ouviu falar no jornalista que morreu no quarto 505? Dizem que ele não superou o luto de uma namoradinha da faculdade. Tão jovem o rapaz. Falaram que ele se trancou no quarto, entregou o cartão de crédito para que fizessem a cobrança do mês e recebia toda a comida do hotel de porta meio fechada, sem nunca olhar para as camareiras. Parou de comer e tratou de morrer bem ali mesmo. A polícia encontrou um caderno sujo com muita coisa sem sentido lá escrita. Provavelmente fruto da sua mente já confusa, não é? Perturbada… Mas me diz de novo. Em qual quarto você disse que vai ficar mesmo?

Alexandre Bernardo

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