Escrevivência: produção das participantes – Dia 04

Seguem textos criados para o curso no dia 14 de outubro de 2023 conduzido pelo acdadêmico @docimarjf. O objetivo principal é possibilitar às participantes a oportunidade de transformar experiências pessoais em expressões artísticas e poéticas.

Em nosso quarto encontro, nos dedicamos à poesia marginal em contexto pajubesco1. A ideia foi unir um movimento sociocultural rico com uma linguagem de resistência. Começamos falando sobre a poesia marginal e como ela influencia as nossas vidas, quando nos remete ao nosso eu marginal e toca nossa ferida. Esse toque pode se transformar em algo libertador ou pode se tornar nosso algoz.

A escrita tem esse poder de libertação, e, ao assumir uma posição de escritor, a pessoa se vê na posição de desatravancar a si mesmo. Essa posição é essencial para trazer à pessoa a libertação necessária.

Ademais, o pajubá fez parte do processor porque é conhecida como uma variante linguística marginal, e, por ser criada a partir da marginalidade travesti da década de 1960, em contexto da ditadura militar, a variante tem o poder de se perfazer na poesia marginal, a qual estava inserida em contexto idêntico à variante.

A formação percorreu um caminho leve e as pessoas presentes se entregaram sem receio. Isso foi engrandecedor e certamente levou ao evento uma aparência agradável, divertida e fruitiva.



Um adé babado desceu o borel no pitboy
A mona abduzida por si mesma não é aceita pela podreira
Ela evita dar coió, mas se a mundiça criar climão, ela não vai perder tempo não
Se a alma sebosa provocar, o boneco ela vai botar
E não adianta reclamar, o recado ela deu ao chegar

Ela tem orgulho se si mesma e só quer viver em paz
Se desaquendar for a melhor saída
O caminho ela vai seguir, mas se o ocó não largar do pé,
dê licença que o picumã vai rodar e a luta vai começar

o apatá ela vai colocar, de modelão a bicha vai ficar
jogando o picumã, o respeito ela vai ganhar
Ai que tudooooooooooooooo! As bees não se aguentam de carinho por essa bicha babadeira
Que resiste e persiste evitando o safanão

Eu sou gongada todo dia, mas permaneço viva
Disse a travesti mais poderosa que esse mundo já conheceu

Sou pintosa, uma watusi majestosa
Reforçou a mona glamourosa2

@docimarjf


A vida

Na vida e melhor tombar pisar em todos os obstáculos que nos atrapalham

Lacrar sempre ser Alice afinal sonhar
é de graça cantar sempre um hino

Fazer a Egípcia e continuar andando é sempre a melhor opção

é uma forma de sair da África e fugir dos peixes que tentam nos devorar



Meu eu marginal

Passei a minha infância e adolescência sem sequer conseguir me olhar no espelho. Tinha muita dificuldade com isso. Depois de muitos anos, descobri que o problema não estava em mim. Eram tantas coisas que eu escutava a meu respeito que saía de casa me escondendo para ninguém me ver. Eu me sentia a pessoa mais feia do mundo. Cheguei a pensar em colocar um saco na cabeça para não incomodar ninguém com a minha presença. Chamavam-me de “Fafa de Belém” e diziam que eu parecia um “colchão amarrado pelo meio” porque eu era uma adolescente gordinha. Zombavam de mim na sala de aula, chegando a jogar meu lanche fora. Fizeram-me sentir tão mal que acabei estudando à noite, mesmo sem poder devido à minha idade, para escapar de tudo isso. Só mais tarde entendi que passei a minha vida sofrendo ataques de pessoas doentes, ignorantes, gordofóbicas e preconceituosas. Elas nem vivem suas próprias vidas porque estão sempre preocupadas em ofender e atacar outras pessoas sem motivo, sem razão alguma, simplesmente porque se sentem bem fazendo isso. Meu eu marginal grita e diz que posso ser o que eu quiser e estar onde quiser. Tem pessoas tão doentes de preconceito que, até te elogiando, te xingam, e nem se dão conta disso. Este é o grande problema do mundo chamado preconceito, que se manifesta através de pessoas verdadeiramente doentes e que precisam de tratamento, pois estão contaminando o mundo com sua doença.

Dorinha

Ei, Alice! Chega perto, quero te contar um babado3
Encontro-me bi-confusa, pois sinto-me cacurucaia,
Passei anos da minha vida em busca de parecer phyna
Usava uma máscara zen-bundista 
E dispensava momentos com a minha uma thurman

É… mas o tempo se esvai
E as aquendações perdem o sentido;
Então, minha querida culé…
Por vestígios de malassombro
Perdi fragmentos de calorosos hypes

Com tantas abstenções, não descolei
Na verdade, entrei em posição de pêra…
Lamentavelmente, demorei para cair na real
E perceber que, de fato, estava me tornando matusalém
Enquanto buscava míseros putos para extravasar  

Mediante as características de jamanta
Outro dia deito-me, ao relento, em meu travesseiro de pluma de gansos
E após dialogar com o meu reflexo no espelho
Sobre as inquietações de minha doce alma envelhecida e disléxica
Adormeço e sonho… com as oportunidades que extraviaram-se.

Alyne Araújo Franco

Para todos e todas…
By Dayse B.

No mundo de Alice
Toda bi é feliz…
Plena… Será?
Presente!
Em todos os lugares,
De todas as formas,
Por todas as cores…

Cercada pelas Anas Claudias,
Bofes, machorras
Barbies e Wonder womens da vida…
Ah, que importa!

Todos os dias
Monas e moçonas
Saem do ilê,
Trabalhadas no picumã,
Prontas a se jogar
No sofá da Hebe,
Abalando geral,
Dispostas a azarar…
E o aqué e a birita à vontade… Sempre!
… Toda Débora Kerr!

Mas se uma alma sebosa solta seu veneno…
Ah, o adé desce do borel e canta pra subir…
Afinal, amanhã é outro dia e seu lado
Zen-bundista, sempre, em alta…



Meu ‘Eu’ marginal…
By Dayse B.

Um dia,
Atiraram em meu rosto, na lata:
_ Tu é gorda!
_ Tu é velha!
_ Tu é louca!
_ Tu é doente!

É verdade… Mas a vida seguiu…

Hoje, sou mais gorda,
Mais velha, mais louca, mais doente…
Ainda…
Ah, e que bom ser esse ser que sou eu!

Mesmo sendo gorda, velha, louca e doente, sou uma avó amorosa, que joga bola na quadra,
Assiste roblox, Peppa Pig…
Sou a melhor das mães que meus filhos poderiam ter…
Fiz segundo furo na orelha… Adoro argolas!
Uso bijus riponga…
Xingo à beça, falo gírias…
Curto K-pop, rapper, rock e BLs…
Ah, mas ainda falta algo: aquela tatuagem…

É… Aquela tatuagem!

Dayse Bernardo

Mona, passei por um aleijo que nem te conto…

A bicha chegou em mim e na minha mulher, toda cheia da razão dizendo: “Que coisa feia, fica fazendo essas coisas depravadas. E outra, quer ficar se fazendo de homem por ai”.

Bi, cê acredita???

E eu respondi perguntando se a gata queria fechar um trisal com a gente

Essa pittbullzeira ainda mandou eu ir procurar uma Igreja kkkkkk

As vezes fico em choque que em pleno 2023 tem tanta homofobia

Esse povo alma sebosa que se faz de alice

AI MEU EDI, VIU!!!

Yasmin Oliveira Hilbert

Deram a Elza na minha voz,
Estilo Ariel, sabe… A pequena sereia?
E falaram que eu era uma bicha-louca
Quando eu percebi os BOs

Como qualquer pessoa em derrocada,
Fiquei passada, preterizada
Com a audácia dessa mundiça engravatada

Acontece que eu sou meiga e abusada (bem Anitta)
Não deito pra patifaria

Coloquei o meu picumã imaginário
Usei meu carão de Beyonça
Liguei meu ventilador na potência máxima
E botei minha boca no trombone mesmo

Se é pra ser a louca, louquérrima
Faço pior, faço o show da Xuxa
Pois tenho que fazer valer a minha cara e crachá

Prazer, bicha-louca
Mas a voz, kiridjinha, é toda minha



Não importa a hora
De dia ou de noite
Sei que se você chama
A gente topa qualquer lance

Em cima da cama,
Na mesa, na escada
Ou naquela esquina

Te pego de capa,
De verso, de lombada
Em pé ou sentado
Até de um jeito meio torto, inusitado

E eu sei que eu não sou tua varoa
Só que quando a gente cola
Ninguém lembra dela…
É só arrasta pra cima

Quando o pai tá on
Tem o dom
Te deixa bem aberto, bem a vontade
Sem vaidade

Não a toa qualquer idiota percebe
O segredinho entre a gente
Apesar desse teu disfarce de crente – do cu quente

Aqui não tem caô
Então não me faz palhaço
Se desenrola com o teu bololô
Ou é tchau e abraço

Niél Sàlim

Amapoa hipnótica

Observando essa almôndega inebriante
Por estas luzes ofuscantes neste balaco
Sinto-me abduzida por este andrógino
Desejo ter um basfond contigo
Vou agir como bruna
Quero azarar contigo até que borboletin há
Aceitas ir ao banheirón?



Sobre o meu eu marginal

Eu sinto tanta raiva que te amar me parece errado
Eu gostaria de poder pegar na sua mão e se eu quiser te abraçar
Não ser abominada por tal afeto
Sinto tanta raiva que em pleno século vinte e um, eu não possa te amar na sala de estar da sua casa com as crianças a nossa frente.
Eu faço parte disso
Eu sou
Tenho orgulho pra caralho de ser uma mulher foda
Que ama estar abduzida por outras pessoas
Mas odeio imensamente voltar disso com tanta raiva
E me silenciarem por quem sou
Gostaria de mandar todos a bela merda
Do mais alto ponto dessa cidade
E no final beijar-te como a morte.
Porra gostaria de amar sem saber porcaria do outro.

Priscila Morais

Cansei de ser Alice
Agora vou abalar geral!
Deixar de dar moral pra alma sebosa,
E permitir que o bofe do milênio me encontre.
Um bofe escândalo mesmo,
Daqueles que mesmo biritado,
Não deixa rolar o climão,
Embora eu deteste pudim.
Chega de comer mosca,
De dar ouvidos a qualquer culé, cheia de culete.
Ebó mal despachado que só quer dar a elza, dar o truque e um fight no meu bofe.
Já vou avisando,
Quer dar um ninja?
Dou um voador, de leve
Ou posso descer o barraco,
Dependendo do climão.
Chega de ser meiga,
Vou alí na descolândia, descolar meu descolado.
Sem esquecer o porta-jóia, claro.
Vou de angélica, fui!



Meu eu marginal

Sou negra e sempre serei
Não importa os julgamentos
Quero me manifestar como sou
Através de toda a negritude que tentam esconder, do tipo: “mas você é moreninha.
Não sou morena, sou negra e com orgulho.
Deixem meu cabelo ao vento,
Ele precisa de espaço, respeito e liberdade.
Assim como eu,
Mulher negra, de negros traços, negro cabelo e pele marrom.
Quero meu espaço e terei!

Ângela Moreira

Meu eu marginal

Sou loca sem juízo
Sem jeito
Sem razão
Sou misteriosa
Sou cautelosa
Sou grossa
Sou fina
Sou má
Penso, choro
Grito alto
Falo mal
Julgo
Sou julgada
Pulo muro
Rasgo palavras
Escancarada, safada
Boca suja
Sou torta até debaixo d’água.

Joseneide Vilanova

De repente, me considero bem louca.
Faço tudo muito rápido pra todos e todas.
Procuro agradar filhos e netos sem pensar no seu bem estar.
Quando pego algo pra fazer quero logo acabar.
Também fico nervosa, as vezes falo o que não devo.
É estranho e desconfortante essa atitude sem desvaneio.
É um desabafo da pessoa que procura, luta, grita, mas também agrada.

Arlene Muniz

Alice que em seu aleijo
Acreditou que o dia estivesse África
África de amor
Que (des) desejou seu ajeum
E abduzida sofreu
Por um abilolado ocó
Não só abilolado
Mas também cachorra
Cachorra essa com caso
Caso esse com uma catreva
Catreva essa que vive
A cagar no maiô
Ocó não aguentou catreva
Logo
Catreva
Levou um banzai de ocó
Alice sendo a Alice
Voltou a sentir larica
Voltou ao seu ajeum
E de tristeza não morreu
Pronta para o próximo ocó!



Gama.
Madeline.
Ma o que?
Risos.
Cachos.
Pobre.
Mãe.
Passadeira.
Pai.
Subemprego.
Sonho.
O primeiro emprego.
Entrevista.
Não.
Na entrevista.
Cachos.
Então, mudaria seu cabelo?
Sim!
Claro!
Então não!
Entra ano.
Sai ano.
Mudanças!
Muitos verões!
Aqui estou!
Aquela menina?
Não sei!
O que fizeram contigo?
O que você fez daquilo
Que fizeram contigo?
Essência.
Permanente!
Grata.
Eu por mim!

Madeline

  1. conheça o pajubá https://www.ccnnoticias.com.br/sociedade/lgbtqi/as-raizes-historicas-do-pajuba-ou-bajuba ↩︎
  2. Glossário: adé: homossexual masculino/descer o borel: brigar/pitboy: heteressexual homofóbico/mona:homossexual masculino, travesti/abduzida:cega de paixão/podreira:pessoa ruim/coió:bater/mundiça:pessoa ruim/climão:clima pesado/alma sebosa: pessoa ruim/botar o boneco: fazer escândalo/desaquendar:deixar de lado, largar/ocó:homem/rodar o picumã:brigar/apatá:sapato, calçado/modelão: roupa/bicha:homem homossexual/jogar o picamã:virar a cabeça com a intenção de ignorar alguém/bee: forma carinhosa e abreviada para designar bicha/babadeira: maravilhosa, incrível/gongada: derrubar, censurar/ pintosa: bicha que da pinta, afetada/ watusi: mulher-bicha poderosa. ↩︎
  3. Alice – bicha que vive num mundo de fantasias
    Aquendar (aqüendar) – chamar para prestar atenção;
    Babado – acontecimento qualquer, podendo tanto ser bom como mau
    Bi-confusa – (adjetivo) duplamente confusa.
    Cacurucaia – (CE) idoso ou que já passou da idade para fazer algo
    Cair na real – acordar para a vida
    Culé – colega, amiga (homo ou hetero)
    Descolar – dar-se bem; conseguir o que se quer
    Disléxia – bicha confusa, com crises múltiplas de identidade, que anda sempre em busca de si própria… e nunca encontra!
    Hype – assunto, objeto ou pessoa em voga; o sucesso do momento
    Jamanta – estado daquele que ficou louco, colocado, lesado, alucinado.
    Malassombro – (PE) diz-se de pessoas ou situações estranhas, que causem certo medo e/ou tenham energia ruim.
    Matusalém – pessoa velha, também designativo de bicha velha.
    Pêra – bicha perdida em estado de puro histerismo
    Phyna – Homossexuais que usam grife, que tem bom gosto, e que são antenados nas principais tendências do momento.
    Puto – dinheiro; exemplo: estou sem um puto.
    Uma thurman – galera; pessoal; gangue; moçada; rapaziada; trupe.
    Zen-bundista – pessoa que passa a imagem de calma e equilibrada, mas na surdina é chegada numa safadeza ↩︎

Uma resposta para “Escrevivência: produção das participantes – Dia 04”.

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