Entrevista – Acadêmico da AVL César Ferreira participa de residência artística na Lituânia

César Ferreira. Foto de Danilo Borges

No contexto de guerra e crescente tensão entre a Rússia e os países do leste europeu, os artistas brasileiros Diego Borges, Pablo Magalhães e César Ferreira se viram diante do desafio de conceber um espetáculo teatral em apenas 15 dias. Eles vivenciaram de maneira intensa a atmosfera carregada de conflito e angústia decorrente da guerra. Nós conversamos com César Ferreira, que é acadêmico da AVL.

Como foi a residencia artística?

Foi intensa. Nós estávamos muito perto da Guerra. Durante a primeira semana de trabalho nos hospedamos em uma fazenda a 30 km da fronteira com a Bielorussia. Essa semana [a conversa aconteceu duas semanas após o retorno] foi noticiado que o governo da Bielorussia começou a fazer exercícios militares naquela região. As pessoas estão tensas, há medo. Imagina ter que seguir sua vida normalmente sabendo que a qualquer hora você pode ter que deixar toda sua vida para trás e fugir!? A Estônia, Letônia e Lituânia estão geograficamente no meio de um grande conflito militar e há profunda expectativa ao desastre.

Como foi o trabalho?

Começávamos o dia praticando princípios de Aikido e Tai-chi conduzidos pelo Pablo Magalhães e seguíamos com exercícios do Teatro Físico — que propõe o processo de criação a partir do corpo. Praticamos quedas, encontrões, esbarrões, toques e improvisações. Experienciamos carregar uns aos outros… Registrávamos tudo em nossas bitágoras1. Era tudo muito corrido, pois numa situação dessas, não há tempo. Era trabalho duro. Todo mundo estava muito cansado quando a primeira fase encerrou. Foram 5 dias bem intensos.

Como era o grupo?

Era bem diverso, com quatro brasileiros, quatro lituanas, um russo e um italiano. Muitos exercícios tocavam a questão de “o que fazer em uma situação de guerra?”, e é só quando você está lá no meio lutando pela sua sobrevivência que você começa a entender a dimensão da coisa. Apesar de serem exercícios de preparação corporal e teatral, a gente ficava pensando na loucura que era estar lá, e essas coisas reverberavam na atmosfera geral do grupo. Guerra é real e todo dia há mortos. É isso que é especial no fazer teatral: conseguir falar sobre o aqui e o agora. O  presente é matéria prima. Como ator foi uma oportunidade única. Que bom que deu bom.

O video é do cineasta Danilo Borges, que foi com a gente pra lá e está montando um documentário sobre o trabalho. Deve sair em breve.

Você mencionou anteriormente uma expectativa ao desastre. Você pode falar mais sobre isso?

É complicado. Quando a guerra estourou na Ucrânia no ano passado, milhões de ucranianos não tiveram escolha e fugiram para outros países de uma hora para outra. Um ano e meio depois do início do conflito as pessoas mostram lidar com diversos sentimentos que esse tema provoca, pois toda a preocupação fica suspensa no plano de fundo. Nós brasileiros sentimos isso também. Lembro de um momento que passou um avião e ficamos apreensivos para saber se era militar. Não era.

Há muita cautela e apreensão. E não é uma coisa de um grupo ou algumas pessoas. Há por toda parte bandeiras em solidariedade à Ucrânia. A guerra permeia o imaginário e muita gente tem se preparado para lutar. A população da Lituânia hoje é de 2.800.000 pessoas. Quantas delas lutarão em caso de invasão? As consequências de um conflito maior são devastadoras e todo mundo sabe disso. A destruição da Segunda Guerra Mundial ainda está bem presente na memória das pessoas e as imagens da Ucrânia são muito tristes. É um tempo obscuro.

E vocês montaram um espetáculo?

Sim! (risos). Foi um desafio grande. O Diego Borges e a Egle Kazickaité da Lituânia que dirigiram. Ao final da primeira semana eles haviam coletado muito material interessante: construímos cenas, textos e movimentações. O trabalho da segunda semana foi ir para um teatro em Vilnius e repetir. Foi uma sacada organizar tudo isso para caber em 50 minutos de espetáculo. Demos o nome de “The Anatomy of a Fight” – A Anatomia de uma luta.

Como foi a sua participação?

O personagem que eu descobri ao longo desse processo era um fotógrafo de guerra e eu tirava fotos em cena. Nas nossas preparações, criamos muitas cenas das atrocidades que acontecem em um conflito como esse. É muito triste. Como fotógrafo, percebo que a fotografia, numa situação dessas, é muito mais do que um brinquedo para criar memórias. Ela tem sido uma importante ferramenta para denunciar o horror de uma guerra. Podemos fazer muitas reflexões. Nos escritos, eu buscava registrar as cenas que o personagem via. Há textos bem fortes.

We arrived at a vast, quiet field. The aftermath of a recent slaughter was apparent, with paramedics diligently searching for survivors, while fellow journalists like myself were also on the scene. Suddenly, without warning, the chilling sound of gunfire once again pierced the air. It was clear that snipers were ruthlessly targeting anyone in their sights, including those who had rushed to aid the wounded. I counted myself fortunate not to be in their crosshairs. In the midst of this chaos, our team quickly sought refuge in a nearby trench. The relentless crack of bullets hitting the ground between us and the hidden assailants was a constant reminder of the danger we faced. In a desperate plea for assistance, our captain urgently requested air support, and astonishingly, within a mere 15 seconds, a jet swooped in and dropped a bomb on the hill where the snipers lay concealed. The deafening explosion was followed by an eerie silence that settled over the once-chaotic field.

Ler a tradução feita por IA

Chegamos a um amplo campo tranquilo. O massacre havia acabado de acontecer, e os paramédicos estavam em busca de sobreviventes, enquanto outros jornalistas como eu também estavam presentes. De repente, sem aviso, o som arrepiante de tiros voltou a ecoar no ar. Ficou claro que atiradores de elite estavam impiedosamente mirando em qualquer um que estivesse ao alcance de suas miras, incluindo aqueles que correram para ajudar os feridos. Eu me considerei afortunado por não estar na linha de fogo deles. No meio desse caos, nossa equipe rapidamente procurou abrigo em uma trincheira próxima. O constante estalo de balas atingindo o chão entre nós e os agressores ocultos era um lembrete constante do perigo que enfrentávamos. Em um apelo desesperado por ajuda, nosso capitão solicitou com urgência apoio aéreo, e surpreendentemente, em meros 15 segundos, um jato se aproximou e lançou uma bomba na colina onde os atiradores estavam escondidos. A explosão ensurdecedora foi seguida por um silêncio sinistro que se abateu sobre o campo que antes estava em caos.

Foi um processo bem cansativo e um teste de resistência. Apresentamos em duas cidades: Vilnius, que é a capital da Lituânia e depois em Klaipeda, uma cidade no litoral do Mar Báltico que foi completamente destruída na Segunda Guerra Mundial. A recepção do público foi muito boa, as pessoas ficaram bem impactadas.

De fato é uma oportunidade única! Como vocês foram parar na Lituânia?

Conheci o Diego Borges e o Pablo Magalhães em 2019, durante uma oficina gratuita de um mês no Espaço Cultural Renato Russo, em Brasília. O Diego criou o First Body – Workshop of Creation, um programa imersivo que desafia artistas a redescobrir o uso de seus corpos para criar. Isso me inspirou a fazer parte do projeto, inicialmente como fotógrafo, e depois me tornei parte da equipe. O projeto sempre teve um foco na internacionalização e atrai artistas de diversos países. Durante uma viagem a Nova York, Diego conheceu Greta e Egle da Lituânia, que se apaixonaram pelo workshop e visitaram Brasília várias vezes. Em 2022, organizamos o First Body Encounter, na UNIPAZ em Brasília, convidando artistas de 8 países para trocar experiências relacionadas ao corpo e elas vieram também. O que fizemos na Lituânia foi o segundo FirstBody Encounter, com financiamento do FAC-Conexões. E o legal é que antes de irmos pra lá, ficamos 15 dias na Colômbia fazendo o workshop. Fui direto pra residência artística na Lituânia! Foi uma jornada emocionante! Mas as histórias da Colômbia pedem outra entrevista! (Risos).

Quais reflexões você fez?

Nossa, é muita coisa. Passei a gostar mais de onde moro, de onde a minha vida acontece. É tão difícil fazer uma vida, ter um lugar e criar as rotinas que vão sendo costuradas diariamente… O cara que dirige o ônibus, o que vende jornais ou a tia que assa pães para vender na padaria nunca pensariam que suas vidas estariam em perigo porque uma bomba poderia cair do lado de casa, ou que possa haver uma explosão nuclear e simplesmente não haver mais casa para voltar. Será que eu seria capaz de lutar pelo meu país?

Não há ética na guerra: vence o mais forte. Escolher ficar para trás é escolher lutar contra o horror humano de fazer mal ao outro. Não são só soldados que morrem em uma guerra, como mostram os jogos de videogame que ensinam como os exércitos funcionam; pelo contrário, é quem não sabe nada sobre como uma matança funciona que morre, sem saber o que fazer para fugir de balas, explosões e mercenários interessados somente em matar, dos jeitos mais criativos possíveis. Em uma guerra, não há diferença entre pedra e gente. Tudo vira uma grande pilha de entulho com fragmentos de humanidade espalhados. Nada mais importa, a não ser a dominação completa. Uma grande demonstração de força.

E nós vivemos muitas guerras também. Veja a situação dos povos indígenas…

Exatamente. Desde quando Pindorama foi invadida, os povos originários estão em guerra. Primeiro contra o mercantilismo, depois o colonialismo e agora o imperialismo, sendo atacados de todas as frentes possíveis. Bobo é quem pensa que os indígenas são bem vistos no Brasil. Morrem de formas atrozes todos os dias e quase não se fala dessa guerra que eles vêm perdendo.

Mas não somente: populações inteiras foram trazidas à força do continente africano ao Brasil para gerar riqueza para reinos que queriam expandir sua influência, fazendo o que fosse necessário para espalhar seus tentáculos de domínio e exploração. Quantos guerreiros perderam suas vidas em Palmares? Quantos jovens morreram na última operação em uma favela? E seguimos lutando internamente no que mais parece uma guerra civil com uma polícia que persegue as pessoas negras.

As mulheres da nossa sociedade são perseguidas, assediadas e mortas todos os dias…

Precisamente. E existem ainda estatísticas sobre a quantidade de travestis e pessoas trans que morrem todos os dias! Não posso andar de mãos dadas com meu esposo em paz porque tenho medo de ser atacado a qualquer momento. Não posso me vestir como quero porque incomoda quem acredita que eu sou errado. Eu só queria poder viver minha vida em paz, realizar meus sonhos e morrer velhinho ao lado de quem amo. Tenho lutado por isso.

O medo da violência que experienciamos no Brasil parece ser tão presente quanto o medo da guerra que você relata. Como você vê o desafio que enfrentamos hoje?

Onde está o pensamento coletivo? Por que sempre precisamos viver uma luta pelas nossas vidas ameaçadas pelo desejo do outro? Por que o meio termo não existe? Estar em paz com os outros requer trabalho ativo e manter a harmonia deveria ser uma busca de todos os seres humanos da Terra. Todo mundo se machuca quando alguém briga. A paz não se faz: ela é construída nas atitudes individuais e em políticas públicas universais e justas.  Precisamos lutar contra a ideia de felicidade eterna gerada pela abundância de desejos artificiais e uma busca desenfreada por satisfação.

Não dá para desfazer as decisões que nossos antepassados tomaram e os conflitos que o mundo enfrenta hoje não começaram ontem; são frutos de séculos de exploração. O que podemos é refletir um pouco sobre o que vem sendo feito nas cidades brasileiras, especialmente aquelas que vêm crescendo em ritmo exponencial, como Valparaíso de Goiás. É necessário investimento estrutural – Cultura, Educação, Transporte, Saúde e Lazer para que as lutas de cada pessoa não seja pela sobrevivência. Para pensar na mudança lá na frente, é preciso olhar o agora. E nosso agora tem refletido muito os erros do passado.


  1. comumente usada para se referir a um livro de notas ou registro onde eventos, observações ou dados relevantes são registrados em um contexto específico. Geralmente, as bitácoras são usadas em áreas como navegação marítima, aviação, pesquisa científica e outros campos onde é importante manter um registro detalhado das atividades ou eventos. ↩︎
  2. Universidade Internacional da Paz, é uma instituição dedicada à promoção da paz, educação holística e desenvolvimento pessoal e espiritual. Fundada por Pierre Weil em 1987, oferece cursos e programas abrangentes relacionados à paz interior, espiritualidade, ecologia e outros temas afins, visando não apenas a ausência de conflitos armados, mas também a harmonia interior e a coexistência pacífica entre indivíduos e a sociedade global. ↩︎
  3. termo de origem tupi-guarani que historicamente se referia ao território que hoje é o Brasil antes da chegada dos colonizadores europeus em 1500. Significando “terra das palmeiras”, essa região abrigava diversas culturas indígenas, que foram impactadas pela colonização europeia. Atualmente, a palavra é usada simbolicamente para destacar as raízes indígenas do país e valorizar a rica cultura indígena brasileira. ↩︎

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