A Morte da Musa

Era alguma parte do dia. Não importava.

Era um país de língua fácil, única e mesmo assim complicada até mesmo para quem ousava a pronunciar.

Era um dia que tinha sido há muito datado como aquele mesmo e nenhum além dele. Havia o sol.

Havia aquele sentimento de perda e aquela pergunta: Como você pode? E as respostas surgiram nas lembranças de mais um pobre garoto com seu coração arrasado em algum canto perdido sobre uma passagem acima da pista de rolamento de trânsito livre.

Como sempre ela aparecia em sua postura tão cheia de si que o diminuía. Ele era grande. Assim pensava, queria ou divagava. Ela era tão cheia de si. Às vezes maior que ele, seu amor, sua tormenta, sua sina.

Cumprimentaram-se como estranhos e todo o tempo juntos, antes disso, não foi suficiente para que ela se lembrasse de algum tratamento carinhoso em relação a ele.

Ele trazia um papel em suas mãos suadas. Não havia mostrado. Não mostraria.

As palavras ditas não eram exatamente rememoradas. Continham ódio, rancor e algo mais. Amor? Contido e escondido entre palavras tão fortes? Possivelmente.

Não aguentava mais essa vida de erros e inconstâncias. Não podia mais esperar que viesse a obter algo com suas atividades impróprias que tanto lhe tiravam as suas noites nos fins de semana. De certo e obviamente aquilo não serviria para alimentar seus filhos. A culpa de tudo era atribuída à maldita vida de poeta que tanto era pretendida e fingida como trabalho. Seriedade disfarçada. Ócio justificado. E para ela seria assim e nada mudaria seu pensamento.

Ele pensava em versos. Seria destruído completamente se os proferisse agora. Suas palavras não atingiriam a parte mais suave de seu ser. Essa parte não existia. Não mais.

Tinha cansado dessas suas palavras escritas em folhas de papel branco com aquele grafite barato ou mesmo com aquela tinta de canetas da pior qualidade encontrada no mercado. Que de tão ruim já se tornava tão difícil de encontrar.

Ele apertava mais forte o pedaço de papel.

Na verdade apertava seu coração.

Não queria saber se ele continuaria aqui amanhã. Pequeno, destruído e tão pequeno sem ela. Ela tinha asas e queria voar. Quer saber? Não importava mais se ele não podia acompanhar sua velocidade.

Imaginava como tudo seria diferente se largasse tudo e mudasse tudo e deixasse todo o tudo pra lá. Logo após a conversa tomaria um drink ouvindo algo lento e calmo que lembraria seu recomeço e sua vida dali para frente.

Disse saber que ele lhe enviaria cartas estúpidas com pedidos sem nenhum sentido. Ele não enviou nenhuma. Se houvesse enviado ela não iria ao menos ler e sequer realmente voltar. Para onde fora decidido viver para sempre. Aos seus braços e abraços.

Cansou das pérfidas palavras e promessas. Tudo era a velha besteira de sempre. Palavras seguidas de desculpas e chegava a hora que nem mesmo sabia o que teria vindo antes. Toda a noite em desespero. Perdeu a cor. Perderam os motivos. Havia ainda amizade? Provavelmente não.

Suas últimas palavras foram: está satisfeito? Estes foram os frutos de teu lirismo! Tuas palavras e todo o seu viver…

Ela virou-se. Ela nunca mais o viu. Ele nunca mais a viu.

Foram embora. Anoiteceu.

E em um papel amassado não muito distante dali, ainda molhado do suor de alguma mão trêmula de um jovem que pensava em versos sem rimas, brancos e vazios como era sua vida, havia palavras rabiscadas com um grafite de péssima qualidade e quase sem mais poder ser lido um: minha vida resume-se a você. Esqueço cada verso, cada palavra. Unicamente para te ter. Saiba que Te amo. Ouça me dizer. Farei tudo por você.

Ele assinava “do sempre e sempre teu”. Nem sempre foi. Foi da vida. Foi das palavras. Foi livre e de ninguém.

Ela estava morta para ele, mas mesmo assim… Nunca a esqueceu.

Nem sequer por um único dia.

Alexandre Bernardo

Deixe um comentário

Leia também:

Caminha

Os artistas nunca paramos de trabalhar, porque estamos todo instante a criar. Cuando uno se pone en estado de observación y lo entiende, lo extiende hacia todos los puntos y momentos de la…

Continuar lendo…

A Despedida

A despedida Ela começou severa, mas como gelo no asfalto quente, auge de janeiro, foi se desmanchando. Não foi por engano. Até mudou de cor. Foi aquele olhar que congela. Fez-se incêndio em…

Continuar lendo…

Ocorreu um erro. Atualize a página e/ou tente novamente.