Nosso Encontro

Arte por @fagnersouza18

Encontrei a musa de minhas poesias bebendo num pub estilo inglês na L2 sul. Parcialmente embriagado como estava e curtindo meu fim de noite de sábado, fiquei ainda constrangido de me aproximar no início. Sentei do balcão alguns anos e mesas de distância. Era ela. Agora tinha mais certeza. Tinha certeza pelo modo que se movia e balançava seu corpo no meio das frases, mesmo que sem notar. Tinha certeza pelo vestido negro e pele alva que vestia para caçar. Tinha certeza pela voz alta que soltava e quando percebia alguns observando ao redor, voltava a se sentir eterna dona do controlar. Tinha certeza pelo riso solto e provocante que inebriava o lugar. Eu tinha certeza.

Ainda tímido procurei ver se percebia. Falava alto com um dos garçons. Soltava gracejos às meninas ao redor. Fazia brincadeiras com desconhecidos e tentava do meu modo chamar sua atenção. Mas ela nem me olhava. Continuava entretida em suas danças, seus risos e principalmente em seu celular. Algo de muito impressionante acontece na tela do celular das pessoas quando tem bastante gente ao redor. Seja no ônibus, nas filas ou no bar.

Sei que desisti e insisti na única coisa de certo que faço. Beber. Comecei a impor um desafio mental. Quantas cervejas de origens estranhas e que nunca tomei eu consigo provar? Eu olhei na carteira algumas notas surradas e sujas e decide me livrar delas o mais rápido possível. Comecei com a Victory Ale, depois passei para a Newcastle Brown Ale e minha visão começava a turvar. A espuma praticamente não existe nas cervejas inglesas, mas o amargor é leve e adequado pra quem está acostumado a viver. Não encontrava mais felicidade. Pedi então uma London Pride que desceu rasgando minha garganta com o gosto do lúpulo e do malte. Eu sofria com a mais leve cerveja do pub. Meus braços sentiam a falta de força e quebrei um copo. Não conseguia mais ler os rótulos. Não sei se tomei a Guiness Draught Stout ou a Spitfire das garrafas de avião.  A banda que tocava no momento foi o suficiente para abafar o som do copo, acho, e eu permanecer no meu perfeito inebriar. Meu embriagar dos solitários de espírito apaixonados por um copo.

Levantei por perceber que meu corpo já rejeitava o líquido no corpo. Chegava a hora de ir ao banheiro a cada trinta e sete segundos. Fui me apoiando nas pessoas no caminho, mais caindo e colidindo com os demais do que propriamente andando, mas funcionava perfeitamente bem e eu tencionava permanecer assim até a hora de voltar pra casa. Vários rostos passando e eu sem saber se eram três ou trinta pessoas falando comigo. Confusão das horas e pensamentos. Uma voz dizia meu nome. Mas muito distante. Repetia. E encontrei a musa de minhas poesias bebendo num pub estilo inglês na L2 sul. Ela apareceu sorrindo em minha frente e tentei cumprimentá-la sem direito cumprimentar. Ela me disse que viu quando eu quebrei um copo. Só pelo extremo barulho é que podia me notar. Como se não se importasse tanto e nem saudade sentisse. Disse um oi de sorriso amarelo e busquei passar por ela como se procurasse por mais alguém ali.

Obviamente não deu certo. A falta da sua voz me tragava e me atraía. Não conseguia evitar. Enquanto falava sentia vontade de tocá-la, tê-la, abraça-la, envolvê-la e não soltar. Vontade urgente que atribula os ébrios. Eu arrumando uma desculpa nova para ficar mais perto. Ela dizia que agora gostava de fumar. Eu que passei a odiar a fumaça em meus dias atuais, corri atrás como que atraído pelo odor da nicotina. Fumava e sentia na fumaça o gosto do passado. Contava casos, histórias e buscava mais ouvi-la, pois enquanto eu falava minha língua enrolava e eu me perdia. Muitas vezes eu não ouvi a história. Olhava fixo em sua boca e lembrava o gosto do beijo. Mordia os lábios de lado escondendo a intenção. Sorria de cada anedota. Não por obrigação, mas por perceber que ela era exatamente a mesma de milhares de anos e mesas de distância. Era a mesma de milhares de cartas e sonhos atrás. Tinha certeza.

Ela disse algo sobre partir e que precisava ir embora. Eu relutei e lutei para que não. Disse que a madrugada era ainda criança e inocente tanta coisa prometia. Pena ela não acreditar. Defendia princípios e filosofias nem tão vãs. Eu dizendo a ela pra deixar tudo de lado por um dia e transformar um sonho em realidade. Sem compromissos e principalmente sem nenhuma responsabilidade. Ela começava a partir e eu tentava segurar. Segurava sua mão. Analisava cada linha. Comparava com a minha. Tentei lê-la, mas sou analfabeto místico.

Pelo destino das estrelas, ela escapava. Ela me envolveu num último abraço. Sentia-me sufocado e só podia respirar quando a beijava. Beijo firme. Sentia seus braços nas minhas costas e a apertava mais firme. Pra mais perto. Mas ela não se enganou com meu abraço. Seus braços me deixando e de meu semblante restou só meu olhar fatigado. Meu olhar fatigado e só. No meio do pub da L2 sul. Ela disse algo sobre nos veremos depois. Eu ignorei. Ri das estrelas e do tempo que nos ilude ao pensar que tudo é certo. Tem início, meio e fim.

Voltei ao balcão e pedi algo para comer a garçonete. Eu a tratei como uma grande amiga que não via há tempos atrás. Contei parte de minhas histórias por entre gritos no bar. Ela só me ouvia balançando a cabeça e perguntando se eu queria algo mais. Algo mais. Eu sempre egoísta e desejoso queria tudo que tivesse um algo mais. Queria sempre mais. Comi alguns pedaços de frango extremamente quentes e deliciosos. Pedi por mais cerveja. Nada importado nem diferente. Voltei a ser eu mesmo. Quero algo próximo de aguardente. Sentir que sou eu e mais ninguém que molda meu caminho. Ela perguntou o que mais eu queria por ali. Eu sem entender fitava seu olhar de madrugada e pensava que era só o cansaço ali a me enganar. Ela sorriu e me entregou um papel. Um número de telefone que certamente eu não conseguiria digitar.

A tela muito confusa da madrugada misturada a cores diversas que só serviam para me cegar. Vieram de todo lado. Do celular, do poste da rua, do sinal que avisa aos pedestres quando atravessar. Tudo me cegava e perturbava. A luz do cigarro na minha boca. Onde foi que eu fui arrumar esse? Eu vi a garçonete acendendo o cigarro e dizendo que se eu não tragasse ele iria apagar. Puxei nicotina e melancolia pra dentro de mim. Debruçados e nos empurrando, seguimos para a rua atrás dos pubs. Guardei meu carro nos estacionamentos dos prédios ali de trás. Seiscentos ou oitocentos e algo. Brasília me confunde, às vezes. Assim como me fazem todas as mulheres.

Errei a chave algumas vezes e ela riu. Não vai me perguntar meu nome? Ela disse ainda sorrindo bastante. Acho que não. Ela me disse que era melhor assim. Eu me lembro de você. Alguns anos atrás. Nesse mesmo lugar. Você era mais jovem. E mais bonito. Eu ri e disse que posso ter sido tudo nessa vida: errado, poeta, vadio, cavalheiro, bêbado, solitário, amigo, vagabundo, pobre, mendigo, punk, metal, grunge ou rico, mas se tem algo que nunca fui nessa vida foi bonito.

Ela sorria, beijando e me chamando de bobo. Seu beijo tinha gosto da ressaca de arrependimento que eu teria amanhã. Gosto de coisa limpa. Gosto de pensamento puro e de panos limpos. Eu trancava as portas e correspondia. Pensava: eu não aprendo. Tentando esquecer os beijos da musa. Eu nunca aprendo.

Alexandre Bernardo

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