EXPECTATIVAS

Seus pés se tocaram timidamente.

Um arrepio com a velocidade de um raio percorreu toda a coluna de um deles, que virou o rosto, sem graça. Eram seis, deitados no tapete felpudo, bêbados e felizes. Comemoravam alguma coisa bebendo caipirinhas mal feitas em copos de plástico. A casa vazia em dias normais estava bem movimentada, porém não tão suja quanto se esperaria. O som ligado não incomodava os vizinhos e ninguém passava mal: era noite leve.

O toque, embora sutil, fora percebido por ambos e antecedeu uma troca de olhares significativa; um sorriso discreto apareceu no canto da boca de um e foi retribuído pelo outro. Sem graça, a mesa de centro, transferida para o canto da sala, parecia atrair-lhe o olhar e sentando-se, de costas para o grupo, pegou a jarra com limões amassados e serviu-se calmamente. Percebeu o coração acelerar.

Na nuca sentia o olhar fixo do outro e, permitindo-se, desfrutou da sensação por alguns segundos. Os pelos responderam ao coração e também se manifestaram. Bebeu um gole, apertou o copo na mão e deitou-se novamente, sem olhar de volta. A música sumira. Respirou fundo, quase ofegante. As orelhas esquentaram. Sentiu calor. Fechou os olhos. Esticou os pés esperando outro toque…

…que não aconteceu.

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