Ane e o Canalha

Tem motivo pra me chamar de canalha. Mas um canalha bem disposto e que sabe o que quer. Ou justamente por não ter essa divisão de certo e errado bem dividida na cabeça acaba por falar demais. Isso é viver? Chamaria assim, pois adjetivos, pronomes, numerais e substantivos faltam, mas vírgulas sobram. A vida deveria ter mais vírgulas e pausas para pensar.

Eu não pensei.

Caminhei até a menina como se não houvesse mais ninguém ao redor. Os outros olhavam. Alguém que não tinha nada com meu “boa noite” sorriu. Ora se não era pra outra, por que ligar? Eu ligado na menina. Não tirava os olhos dela. Não conseguia. Era ninfa hipnotizante demais.

– Não quero atrapalhar teu show, mas tenho que confessar que quando te vi… (Fiquei logo louco pra te beijar de cara) Entre parênteses, não dito. Bem, te vi sozinha e pensei em conversar (perder-me nos seus lábios entreabertos que ao cantar me deixaram completamente louco). – Eu sempre sou sincero na medida do possível e do socialmente aceitável. Sou um canalha de escrúpulos. E disse algo próximo disso com uma cantada bem batida e mal elaborada, mas que a fizesse sorrir.

Ora se os canalhas não são também clowns de Shakespeare. Eu mesmo acredito viver em mim um clown perdido que toma atitudes infantis e idiotas para se divertir. Posso culpá-lo por ser o canalha da história e por tentar sempre me destruir. Contaria a história do clown para a menina. Um dia, hoje sou clown e estes são diretos e determinados. Canalhas.

A conversa simplesmente fluiu. E poderia falar mais duas ou três folhas do assunto e dos pensamentos, mas, como clown, busco direto a essência.

– Menina, eu não vou embora antes de beijar sua boca… (E saiba que o tempo pode passar à vontade que quando determinado não me importo em esperar). Ela sorria e eu chegava cada vez mais perto. Mais perto de sua boca e vidrado em seu cheiro. Cada vez mais perto. Mas ela começava sempre um discurso de boa moça. Não me leve a mal, mas sou um canalha que aprecia também as boas moças. Mas não me mate de desejo, menina.

Precisava terminar um relacionamento e por mais que tenha gostado de você e do que você disse, teria que esperar. E o clown pensava em saídas e escapatórias. Ela adiava. Ele insistia. Ela sorria e conversava. Faremos pois assim, ela disse sem preocupações, anota meu contato e me adiciona hoje (rede social como novo telefone, penso eu) que conversaremos pra marcar alguma coisa juntos. O clown anotava. Escreveu “Anne”. Não é assim garoto, escreve um “n” só, senão você não me encontra. Vamos nos encontrar.

Ele a abraçava e beijava o rosto esperando a boca da ninfa hipnótica. Ele a soltou devagar enquanto se perdia nos olhos da menina. Tornar-se-ia em pedra e nem ligaria. Perderia o show, sua própria apresentação e a viagem da trupe. E ficaria com a menina sendo o canalha mais feliz do mundo por ao menos uma noite. Se ela fosse embora pela manhã, ele teria uma grande história para rabiscar num caderno sujo que escondia no fundo do carro de viagem.

As mãos se deixaram e ele partiu com um nome no bolso, mas um canalha nunca para. Andava mais rápido e o nome anotado o deixou.

Caiu. Vamos nos encontrar.

Perdeu-se. Vamos nos encontrar.

Ane tem motivo pra me chamar de canalha. Vamos nos encontrar.

Quem sabe um dia a gente vá se encontrar. Seja Ane outra. Seja outro o clown.

É assim todo dia e no próximo final de semana será igual.

Ane e o Canalha.

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