O diálogo da infelicidade em um cotidiano desperdiçado

Certo dia, andando pela rua observei o rosto das pessoas e percebi o quão fechada e triste eram as suas expressões. Observando toda essa melancolia e esse ar altivo que escorria daquelas fisionomias incompletas, alteradas e insones, pensei:

Firmamo-nos em metas complexas e quando percebemos a impossibilidade de conseguirmos, frustramos. Corremos rápido demais, desejamos muito o que o outro tem e depositamos no dinheiro, no possível casamento, no carro novo, na beleza e no status toda ideia de felicidade.

Nesse momento comecei a me questionar e a me responder simultaneamente.

— Mas que felicidade?! Como conseguir essa tal felicidade?! O que seria felicidade?!

— Dinheiro é felicidade?

— Hmmm! Não, não é. Ele vai suprir e trazer uma sensação de alegria até o dia em que as minhas necessidades primárias forem supridas, e depois disso tudo voltará a ser chato e sem graça.

— Então a felicidade é o casamento?

— Beem! Ééeeé! Hmmm! Não sei, quem sabe. Sei lá! Pensando bem não é, não mesmo. Como focar a felicidade em algo que não se pode controlar? Ninguém é de ninguém e eu não poderia tratar o meu parceiro ou parceira como uma propriedade. Fora que em um relacionamento, se isso fosse de fato a única possibilidade de ser feliz, eu dependeria do outro e precisaria depositar expectativas nele para alcançar esse auge. E, olha o tamanho do erro que eu cometeria. Não tem como, de forma alguma, pois o outro não está sob meu controle e agir assim é extremamente arriscado, logo, não tem jeito, casar não é sinônimo de felicidade.

— Então é a beleza?

— Será? Mas não, não há nem como indagar isso, porque não é! Não, não mesmo. Ninguém pode ser perfeito. E mesmo que eu fosse o cara mais padrão desse mundo, ainda assim de alguma forma eu encontraria algo que ao ver da sociedade talvez não fosse tão belo e por esse motivo eu acabaria me cobrando e a infelicidade atacaria outra vez. E sabe, na verdade beleza é algo muito subjetivo e esse modelo que a sociedade contemporânea adotou como perfeito é um estereótipo, posto que mais vale uma personalidade bela, uma mente sadia a um corpo padronizado. Estão aí vários exemplos de pessoas lindas para os padrões sociais e que hoje se demonstram totalmente infelizes. Exemplo disso é a atriz e cantora norte-americana Lindsay Lohan que, apesar da beleza exterior, encontra-se a decair dia após dia em um mundo de solidão, sofrimento e tristeza.

— Hmmm, mas então o que seria a felicidade? Seriam os livros de auto-ajuda? Mas não sei. Esses livros sempre me dizem o que fazer, eu coloco em prática tudo o que seus textos me falam, mas mesmo assim eu não encontro a felicidade.

— Talvez eu precisasse ler mais livros assim para conseguir alcançar a felicidade, não é?

— Não, não, não, não! Para, para, para! Para de pensar besteira. É claro que não. Esses livros pecam infinitamente quando tentam controlar os sentimentos e procuram encontrar formas milagrosas para a realização pessoal, o que é impossível, já que não somos iguais e temos objetivos diferentes. E pensando bem é fácil imaginar isso, pois tais livros nos dão receitas engessadas. Por isso, eu me pergunto, por que seguir a receita do bolo de chocolate se eu gosto é de bolo de laranja? Enfim, não tem como eu me firmar nesses livros, pois a única coisa que eles poderão me dar é uma satisfação momentânea e depois me verei como antes, frustrado e ansioso.

— Sendo assim, talvez seja interessante eu me dedicar a algo. A uma religião, quem sabe. Seguindo uma talvez eu seja feliz.

— Mas eu já tive uma, não foi? Por esse motivo me pergunto: – religião, será? Tem certeza?

— É, né? Acho que não! Preciso ter cuidado ao me firmar na ideia de que religião é sinônimo de felicidade, porque não é. Sabe o que ela lembra?A receita do bolo e do livro de auto-ajuda, pois quando se segue uma religião, acaba-se caindo em uma receita engessada talqualmente o livro. Ela é capaz de me oferecer apenas um caminho que, em geral, é completamente diferente do meu e me transforma no que eu não sou. E isso pode me impedir de sonhar, de desejar e de requerer meus objetivos primários. E olha, viver reprimido, isso sim é ruim. Eu sei bem e sou prova viva disso.

— Então sabe o que eu vou fazer?

— Vou ser eu, sabe. Cansei de ser o que os outros querem que eu seja. Vou ser negro, gay, grande ou pequeno, gordo ou magro… e que se foda a sociedade e seus rótulos. Vou tentar me equilibrar, vou sentir prazer, vou dar, vou meter… vou me engajar e trazer significado a minha vida. E se alguma vez eu me sentir novamente infeliz, irei tentar me reerguer, pois não existe quem viva só de altos, já que os momentos de infelicidade são necessários para continuarmos seguindo em frente, não é verdade? Imagina como seria chata a vida se estivéssemos sempre felizes e não precisássemos fazer esforço nenhum para conquistá-la? Já dizia Robert Wright, jornalista norte americano: “Felicidade é projetada para evaporar.” Então ser infeliz também é necessário. Nesse caso, vou seguir em frente, porra! Vou me preocupar com essa tal felicidade mais não. Quero é viver, quero conhecer mais, ler mais, doar o meu melhor aos outros e sugar dos outros o melhor.

Deixe um comentário

Leia também:

Caminha

Os artistas nunca paramos de trabalhar, porque estamos todo instante a criar. Cuando uno se pone en estado de observación y lo entiende, lo extiende hacia todos los puntos y momentos de la…

Continuar lendo…

A Despedida

A despedida Ela começou severa, mas como gelo no asfalto quente, auge de janeiro, foi se desmanchando. Não foi por engano. Até mudou de cor. Foi aquele olhar que congela. Fez-se incêndio em…

Continuar lendo…

Ocorreu um erro. Atualize a página e/ou tente novamente.