
Uma quinta-feira morna, apesar de ser maio. Já era perto de meio-dia. Trabalhando há algumas horas enfurnado no meu escritório, agora perturbado pelo barulho da rua à frente em maior movimentação, decido sair um pouco. Caminhar, ir atrás de comida. Ao abrir a porta do apartamento, me deparo com um par de olhos à altura do chão. São carentes e profundamente caninos, tristes. Meu Deus, tem um cachorro aqui. Olho ao redor em busca de alguma pista que solucione o pequeno mistério, nada. Apenas um ser indefeso aninhado no capacho. Seus olhos pesados mal se erguem para encontrar meu rosto e logo identifico uma cratera na sua nuca. Uma pasta branca feito plasma solidificado preenche boa parte do espaço aberto. Há pouco escorria por seus pelos cor-de-caramelo, agora adicionado um tom misto entre branco e vermelho-sujo de sangue endurecido. Penso ver um osso à mostra. O olhar cansado volta a deitar o focinho entre as patas, gesto que em qualquer outro cenário arrebataria suspiros calorosos – eu, eu suspirei frio, de pena e impotência. O cheiro de cachorro gasto inebriou meus alvéolos pulmonares.
Calma aí, vou pegar uma água pra você. Deixo a porta aberta e vasculho a pilha de vasilhas plásticas no alto do armário. Seleciono aquela sem tampa, menos usada no dia a dia – há ainda repulsa pela situação decrépita da minha visita inesperada –, encho-a de água – filtrada, pois existe mais ainda o bem querer, um senso de cuidado que desconheço – e, agachado, ofereço o líquido ao paciente com a destreza gentil de um enfermeiro que olha nos olhos. Um sutil meneio do focinho dissolve o limiar entre animal e humano. Algumas fungadelas e, então, a recusa pelo olhar, que se afasta e conduz a cabeça para o lado contrário. Meu cuidado foi desprezado. Deposito o recipiente ao lado do focinho tristonho e o deixo. Quem sabe cães precisem de privacidade, e instantaneamente antropomorfizo os instintos selvagens que arrastaram Boris até ali. Já era, batizei o bicho agora vou ter que ficar com ele.
A porta continua aberta e eu continuo atônito. Pesquiso o número da zoonose enquanto corto um mamão em ingênua tentativa de nutrir o corpo e o espírito de um vulnerável vira-lata. O mamão tem bolor e a zoonose não atende. Que merda, se não os outros, agora serei eu quem terá de cuidar do bicho. Assaltado por um senso de responsabilidade que não quero carregar, volto à porta e encontro na mesma posição meu futuro companheiro empurrado pelo destino, enrolado feito caracol-mamífero. A ferida exposta, feia, nojenta, o osso coberto de pus antigo captura meu olhar desviante. A tragédia gravita a atenção humana feito buraco negro. A dor me suspende do tempo e soterra o espaço. O prenúncio da morte me fascina e me atrai, mariposa carente de luz. Agachado, os olhos à altura do par medroso que me observa, vítima que sequer sabe como se recebe ajuda, ofereço o dorso da mão. Também guardo minha parcela de receio e respeito pela dor que não é minha e que insisto em querer carregar, crucificado pelas escolhas de meu coração liquefeito. Com a permissão silenciosa de quem não tem alternativa, toco suavemente sua fronte peluda e cabisbaixa – selvageria forçosamente domesticada – e apesar do infortúnio sinto pela primeira vez esperança. Enfim nos conectamos. Vislumbro um sorriso nas pupilas dilatadas a me observarem de baixo, mais uma vez humanizo e projeto minha alma na janela alheia. Por que esse impulso de roubar todas as experiências para mim? Minha mão tímida se recolhe e meus olhos ávidos passeiam pelo animal-objeto à frente, desnudam o corpo inteiro à procura de novas pistas, tecem julgamentos à velocidade da luz. Quem foi que fez isso com você? Um amálgama de frustração e raiva, indignação e asco. Da bruma mental se desenha de imediato um homem, um cano metálico, o desprezo e a ira. Meu estômago se embrulha – talvez tenha sido o mamão que comi mais cedo e não vi que estava embolorado.
Entro em casa, sustento a abertura da porta com um par de tênis e ando até a cozinha, dou meia volta e vou até a porta novamente. Boris segue lá, a água segue intocada, a cratera parece maior. Pulsante. Em erupção. Retorno adentro, passos erráticos despejados por minha mente, e um lampejo de generosidade: vou pegar uma manta, construir um ninho com meu instinto paterno e cuidar do Boris na sala, a porta enfim cerrada para dar-lhe privacidade e segurança. Temo pela incompreensão impaciente dos vizinhos e uma nova cratera no seu lombo desamparado. Ouço o projetivo ganido fino de sofrimento canino no meu dormente lobo occipital, e emerge do lobo pré-frontal novo lampejo: como vou lidar com esse cachorro? Não quero cuidar de ninguém, não. Um desânimo, um peso me prende ao chão e anula meus passos tontos sem rumo. Eu me reconheço no meio do corredor, quase chegando ao quarto de onde buscaria a manta quentinha, acolhedora, a salvação de Boris. O meu cárcere momentâneo. Não estou pronto para me prender a ninguém além de mim mesmo. Não estou disposto a ceder minha independência pela dependência de outro ser. Um som rápido me emerge do mar de reflexões, parecem pés correndo pelas escadas. Caminho passos breves à porta e vejo uma menina parada. Seu olhar perfura o espaço até meu apartamento, carregando consigo o semblante curioso da meninice e certa compaixão. É ela ou sou eu que olho pra dentro? Imagino que sua atenção tenha sido capturada pelo cachorro perdido. Quando escorrego os olhos para baixo a fim de encontrar o objeto da atenção cativa da menina, não há nada ali. Apenas o capacho vazio e a vasilha de plástico quase transbordante, ainda intocada. Miro a frente e a menina já desceu o restante das escadas. Sigo seu rastro até chegar lá fora e busco Boris com meu olhar carente. Não o vejo em nenhuma direção, nem sinal dele, apenas pessoas deslizando por seus afazeres com a apatia de uma quinta-feira de manhã.
Volto à porta, respiro fundo e, por Deus, sinto o cheiro forte de cachorro que se banha apenas em água de chuva. Parecia vir das escadas. Subo até o último andar, inconformado com sua partida abrupta, ingrata, enigmática como sua chegada. Não é possível, como ele teria subido as escadas ferido e desnutrido como estava? Nada. Como ele teria partido tão veloz se não havia energia sequer para beber água? Entro no apartamento, cuja porta permanecia escancarada, e vasculho embaixo do sofá, olho nos cantos da cozinha e da área de serviço, procuro atrás da porta do banheiro e dentro dos quartos. Nada. Nem partículas odoríferas de vira-lata confundindo meus neurônios. Por que ele partiu justo quando estava se tornando meu?, minha mente resmunga em tom capitalista. Ela insiste em possuir seres para si. De fato, era eu quem estava me tornando parte do animal – talvez por isso ele tenha partido. Inclinando-me à frente para pegar o pote com a água intacta, inspiro profundo no esforço de recordar o perfume de Boris. Quero decantá-lo no meu peito. Naquele momento sinto seu cheiro, idêntico ao de todos os cachorros que já acreditei possuir. O odor não se esvaiu aos poucos, não deixou tempo ou espaço para saudade: de súbito, desapareceu.

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