O trem da meia-noite

O trem da meia-noite vinha apitando e estrondando nos trilhos, ela ouvia nitidamente. E isso ficava o quê? Uns 3 km de onde ela estava! Não era incômodo, mesmo assim, ela ouvia. Durava no máximo 2 minutos. O trem apitava porque era um cruzamento perigoso, sob um viaduto, mal iluminado, cruzando com uma via de mão dupla, onde os carros passavam sem lembrar que ali ainda era uma via férrea ativa.

Meia-noite, a hora assombrada. Ela estava acordada. Estava quente como o inferno. Era primavera, mas ali o clima era insuportável. Quente, seco. Seco como ela se sentia.

Então ela ouviu. Mais sentiu do que propriamente ouviu. O ar ficou diferente, mais denso. O calor diminuiu como se uma brisa gelada soprasse, mas não tinha brisa. Ela ouviu os sussurros. Quanto tempo até ela enlouquecer de vez?

Uma voz parecia se destacar do burburinho, quase infantil, quase meiga.

– Tem alguém aí? Alguém pode me ouvir?

Um arrepio percorreu a espinha dela como se um dedo gelado e morto a tocasse. Um leve odor pútrido chegou às suas narinas. Ela não conseguia se mexer.

– Lúcia? Lúcia??

Ela sabia quem era. A irmã morta. A irmã que tinha 12 anos quando correu direto na frente de um trem para pegar uma pipa. O trem vinha estrondando, apitando. Mas Luíza não parecia ouvir. Ela olhava para a pipa. O barulho de coisas sendo esmagadas e espirradas foi muito mais ensurdecedor do que o grito estridente das rodas de ferro faiscando nos trilhos ao serem desesperadamente freadas pelo maquinista em desespero. Ele sabia que não dava mais tempo, mas freou insanamente mesmo assim.

Lúcia assistiu ao show de horrores a poucos centímetros. Ela havia corrido. Ela tinha gritado o nome da irmã, mas o barulho ensurdecedor do trem abafara a voz miúda da menina. Elas eram gêmeas.

-Lúúúúciaaaaaa?? Cadê você?

Era um sussurro alucinante no meio de outras centenas de vozes sussurrantes e mortas. Elas eram gêmeas e médiuns. As meninas se comunicavam com o outro lado desde muito pequenas. Aos 8 anos elas eram o ganha pão dos pais e irmãos. Aos 10 eram famosas. Mas nem Lúcia, nem Luíza entendiam bem o que tinha do outro lado.

As pessoas vinham, chorando. Falavam com o pai. Davam coisas. Davam tudo que tinham. O pai vinha sorrindo. Trazia uma roupa, um objeto e dizia para elas se concentrarem. Elas seguravam a coisa e tocavam as mãos uma da outra. Então as vozes vinham. Sussurros, todos misturados. O pai falava um nome, chamava, perguntava se a pessoa estava lá. Elas não entendiam bem, nem como, mas era nesse momento que uma voz se destacava. Um vulto se insinuava. E elas repetiam as palavras que ouviam. Havia mais choro, mas era misturado com sorrisos. Depois tudo acabava. Elas ficavam esgotadas. Dinheiro trocava de mãos e elas iam comer e dormir.

As meninas não lembravam quando tinha começado, era assim desde sempre. O pai tinha percebido que podia ganhar dinheiro com o dom das filhas. Ele gostava muito de dinheiro. As meninas raramente podiam brincar ou ter alguns momentos de paz. Trabalhavam como escravas. Mais ninguém na casa trabalhava. Elas eram a única fonte de renda. Mas era o aniversário de 12 anos delas e Lúcia queria a pipa vermelha. Por algum milagre o pai comprou. As meninas foram empinar a pipa. A linha arrebentou e Luíza correu para recuperá-la. Então, e só então, elas entenderam o que tinha do outro lado: morte.

Lúcia ficou. O outro lado se revelou como uma sombra de desespero. Não havia sobrado muita coisa de Luíza para enterrar. Por meses a dor do luto de Lúcia nublou os seus sentidos espirituais. Ela não ouvia nada, não via nada. Apenas escuridão e dor.

Mas um dia, ela não conseguia dormir. Era meia-noite. Eles haviam se mudado de cidade depois do ocorrido. Lúcia nem sabia que o trem de carga cortava a cidade, até ouvir o trem da meia-noite.

Ela achou que estava louca. Ou que era um som do outro mundo. Até entender que, devido ao silêncio da noite, o barulho do trem, longe dali, podia ser ouvido.

Então, depois do silêncio, quase palpável depois que o trem passou, ela ouviu os sussurros novamente. E, pela primeira vez, entendeu o que eram. Eram as vozes dos mortos. Ela teve medo. E o medo a paralisou. Então ela, sem querer, quase automaticamente, pensou na irmã morta. E, imediatamente, a voz de Luíza se sobressaiu…

– Lúcia, está escuro aqui. Onde você está? Fale comigo! Me guie…

Lúcia estava aterrorizada. Ela não conseguia se mover, muito menos falar. Aos poucos, os sussurros engoliam a voz de Luíza e tudo ia voltando ao normal. Lúcia chorava até dormir.

No dia seguinte ela chegava perto do pai e apenas balançava a cabeça negativamente com lágrimas nos olhos para dizer ao pai que não podia mais falar com os mortos. Ela não falava que tinha voltado a ouvir os sussurros, muito menos mencionava a irmã. Ela ficava zangada. Havia entendido que ela e a irmã haviam sido exploradas a vida toda. E agora a irmã, gêmea, uma parte dela mesma, estava morta. Lúcia nunca mais ganharia dinheiro às custas da dor das pessoas. Além do mais, agora que ela sabia o que era tudo aquilo, ela sentia medo. E ainda tinha o cheiro, podre, cheiro de morte.

Lúcia achou que ia parar se ela ignorasse. Mas não parou. Nunca parou.

Ela sentiu a mão gelada tocar seu pé. Então a voz morta de Luíza falou em seu ouvido…

– Lúcia? É você?

Lúcia não se moveu. Apenas virou os olhos. Os olhos embaçados, cegos e mortos de Luíza olharam para os olhos dela.

– Lúúúciaaaaa

Era uma voz cantada. Má. Morta. Apavorante.

– Venha Lúcia.

Todos os dias. Há 10 anos. Lúcia fechava os olhos, respirava, e então, tudo acabava.

No dia seguinte Lúcia finalmente contou ao pai. Ela disse que Luíza só falaria com ela na linha do trem, à meia-noite. Ela disse que os mortos voltariam a falar com ela se ela primeiro falasse com Luíza. O pai sorriu, o olhar distante. Ele parecia nunca notar Lúcia, nunca a olhava diretamente, nunca falava com ela. Apenas ficava triste, chorava, ou sorria debilmente. Mas, era aniversário da morte de Luíza, aniversário de nascimento delas. Que dia triste era. Então, na hora adequada eles foram para o cruzamento da linha de trem. Lúcia ouviu o trem bem antes da meia-noite. Ela segurou firme a mão do pai diante dos trilhos. O cheiro veio primeiro, carne humana em decomposição. O pai se queixou, disse que devia ser um animal morto. Os sussurros começaram e o pai arregalou os olhos. Ele estava ouvindo. Lúcia sorriu, o pai tentou se livrar do abraço da filha. Mas os braços de Lúcia tinham se emaranhado no corpo do pai.

– Lúcia! Vocês vieram!

Os olhos mortos estavam a poucos centímetros do rosto aterrorizado do pai. O bafo pútrido molhou a orelha do velho. Ele deixou uma lágrima escapar e sua bexiga se soltou. Os três, assim emaranhados, se lançaram na frente do trem da meia-noite no exato instante em que o maquinista acionava o apito. O baque molhado e crocante dos corpos contra o trem não foi ouvido. Apenas Luíza, morta e sentada na beira da via, conseguiu ouvir o som dos ossos quebrando, dos órgãos se liquefazendo, dos membros arrancados sendo jogados para os trilhos e sendo triturados pelas rodas de ferro que gritavam e soltavam loucas faíscas.

Luíza se levantou e fechou os olhos. Sentiu, como uma pessoa morta pode sentir, a mão de Lúcia tocando a sua.

– Lúcia

Os lábios se curvaram num arremedo de sorriso.

– Luíza

Lúcia olhou para o trem fumegante descarrilado. Dessa vez era um trem de carga e não um trem de passageiros.  Não havia o show de horrores com centenas de corpos mutilados da outra vez. Naquele dia, dez anos antes, o sangue tinha escorrido de todos os lugares, sangue de quase duzentas pessoas misturado. Lúcia tinha corrido para tentar alcançar Luíza. O pai, que deveria estar cuidando das meninas, estava bebendo num bar enquanto as garotas brincavam perto demais da linha de trem. Ao tentar alcançar Luíza, Lúcia tinha sido colhida por um dos vagões descarrilados e seu frágil corpo tinha sido mutilado e se juntado aos montes de pedaços de gente estraçalhada nos destroços. Mas Lúcia não tinha se dado conta de que tinha morrido. Ela ficou com raiva, a dor a cegando. Ela culpou o pai, bêbado e explorador. Então ela voltou para casa e lá ficou por 10 anos, assombrando o pai. Ela não se dava conta de que também estava morta, era uma assombração que torturava o pai. A mãe o deixou com os outros três irmãos. Ele ficou só, triste e amargo. Mas parou de beber. Em vez disso, parecia um zumbi. Mas Lúcia ficou com ele. Odiando e assombrando. Luíza tentou falar com ela, mas ela não quis ouvir. Ela não sabia.

Então ele finalmente bebeu novamente. Naquela noite o pai ouviu a voz da filha chamando. Era Lúcia, ele podia sentir. Ele achou que finalmente a culpa o havia enlouquecido. Pegou a garrafa de cachaça de 10 anos. Ele tinha guardado para se lembrar porque tinha parado de beber. Mas era a voz de Lúcia chamando, certeza que era. Ele bebeu. Então sabia. Ele sorriu e bebeu. Esperou a hora certa e, então, foi para a linha do trem. Ele sentiu o abraço das filhas mortas. Era o abraço da morte. Era estranho. Ele ficou aterrorizado. Uma lágrima escorreu. Ele sentiu um cheiro horrível, carniça, morte. Um bafo pútrido soprou em seu ouvido, era Luíza. Ele se urinou. Sentiu a presença dos mortos, de todos os cento e oitenta e três mortos. Mortes causadas por ele. Ele havia enterrado pedaços das filhas em dois caixões brancos depois daquele acidente terrível. Agora, ele abraçou as filhas, fechou os olhos sem saber se de medo, dor ou loucura. Então, mesmo assim, entorpecido de dor e álcool, ele pulou na frente do trem. O Maquinista em desespero acionou o freio. Tarde demais, óbvio. O trem descarrilou. Mas, dessa vez só ele morreu. Ele viu as filhas de mãos dadas olhando para ele poucos segundos antes das sombras negras aparecerem. Ele ouviu os gritos dos agoniados e sentiu as mãos em garras rasgando sua… alma? Sim, o corpo tinha sido destruído pelo impacto do trem. A cabina do maquinista tinha sido poupada como que por milagre. Ele não tinha sentido nada. Mas agora as sombras o dilaceravam. Ele gritou em agonia. Sua boca formou a palavra “perdoem-me” poucos segundos antes de ser tragado para a escuridão.

As almas penadas sussurraram agitadas e foram levadas pelo vento. As garotas mortas se abraçaram, sorriram com dentes negros e podres. Ninguém as viu, nunca mais.

Débora Iglesias

26/09/2022

Deixe um comentário

Leia também:

Caminha

Os artistas nunca paramos de trabalhar, porque estamos todo instante a criar. Cuando uno se pone en estado de observación y lo entiende, lo extiende hacia todos los puntos y momentos de la…

Continuar lendo…

A Despedida

A despedida Ela começou severa, mas como gelo no asfalto quente, auge de janeiro, foi se desmanchando. Não foi por engano. Até mudou de cor. Foi aquele olhar que congela. Fez-se incêndio em…

Continuar lendo…

Ocorreu um erro. Atualize a página e/ou tente novamente.