
05/01/2021, 21:46
Eu quero sonhar com pássaros mais uma vez. Uma vez eu sonhei com passarinhos. Eram aves incontáveis, coloriam o céu e algumas delas tinham penas douradas ou brilhavam. Elas subiam ao sino de uma igreja solitária, cantavam o seu canto onírico e faziam seu voo descompromissado. Nesse instante parecia que o tempo havia deixado de existir. Ouvia seu canto suave, como nunca havia ouvido antes, e me esquecia de mim, do tempo, daquilo que foi perdido, dos pensamentos. Antes de adormecer, padecia a dor latente. Como de costume, havia perdido alguém. Daquelas perdas de quem se vai, mas permanece ali, no horizonte inalcançável da estrada, deixando uma trilha carmesim. Essa despedida de quem não morreu, mas você sabe que nunca mais vai poder ver, não pelo azar da distância, mas pelas infelizes circunstâncias. Eu padecia dessa dor e tentava não pensar, e pelo cansaço de sentir tão intensamente, sem descansar as más recordações, adormeci. Antes eu havia feito uma prece, dessas que rezamos bem baixinho, sem saber o que dizer. Eu apenas pedi um alívio. Então me vieram os passarinhos. No instante do sonho, eu era uma ave cantando. O canto é gratidão, é seguir em frente apesar da estação fria que há pouco passou e da certeza de que outra virá. Eu não poderia cantar naquele momento, mas o esquecimento do sonho me permitiu ser passarinho, mesmo que por pouco tempo. Então despertei com a memória daquela luz ainda se desfazendo de minhas retinas; ia recobrando a aflição que comprimia o coração na gaiolinha do peito. Ainda naquele frio inverno, eu podia me lembrar do calor da próxima estação. Então agradeci e pude sorrir. Hoje eu queria sonhar com pássaros, mas eu sei que esse inverno logo passa e eu vou botar os pés no chão quente e voar feito criança descendo a ladeira, correndo, sentindo o vento no rosto e esquecendo o quanto dói. Agora eu só preciso saber que tudo passa. Eu agradeço. Eu somo primaveras, não invernos.
Hugo Penna
(Heterônimo de Daniel Canhoto, acadêmico da AVL)

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