A SERRA DAS ALUCINAÇÕES

Luis Rafael Ramos Herrera, El Hermoso, iluminando o monte Ávila, em 31 de agosto de 1986, às 13h20, chegou a este espaço mitológico nunca antes visto. Foi assim que ele cresceu em uma família no vale de Caracas até o ano de 2017. Durante esse período, formou-se como Técnico em Manutenção Aeronáutica para ajudar muitas criaturas de seu habitat a voar de forma segura, e também se formou como Engenheiro Industrial para lidar com quase qualquer situação que surgisse em seu ambiente mágico.

Foi então que ele decidiu fazer uma viagem pelo território patagônico, se enchendo de vida, novas experiências, lutando contra as adversidades e redescobrindo assim sua vocação pelo mundo artístico, entre outras coisas, através dos bolos míticos da Ivanna’s Cakes House, mudando de peles no teatro como um Leviatã, e também sendo um Zorres do esporte.

Após seis anos, agora em terras brasileiras, ele decidiu começar uma nova jornada, onde está evoluindo ainda mais, agora transformado em um Sirrush, pronto para demonstrar sua ferocidade sendo parte da Academia Valparaisense de Letras (AVL) e assim cultivar sua inteligência através da escrita.

Embora esta seja sua primeira publicação oficial, ele tem certeza de que continuará  evoluindo ainda mais nessa espiral da vida, e dessa forma seguirá sendo essa criatura nunca antes vista, mas que todos sabem que existe.

Sua premissa? Poesia Empíricx.

Este portal tinha outro daqueles símbolos mágicos que era outro portal. Se você quiser, este símbolo mágico te levará para outra dimensão, onde a língua será a sua.

A Caminhante continuou hipnotizada até o portal. Ela entrou e se deixou levar…

É meados de julho e, como sempre nesta época, chegaram as férias de inverno, alguns dias sem faculdade, sem professores, sem provas, uffff… O máximo! Foi assim que Ema e seu grupo de amigos decidiram ir até Tandil para passar alguns dias desfrutando das serras, do clima, da vegetação e das noites iluminadas pela lua, perfeitas para acampar, fazer uma fogueira, tomar algo, enfim, o plano perfeito para se divertir.

É assim como depois de muito planejar chegou o grande dia. Todos se encontraram em Caballito, onde Ema estava, a cerca de quatro quarteirões de Primeira Junta. Era o lugar mais próximo para todos, e dali partiram para sua viagem inesquecível. Em um dos carros estavam Ema, Sara, Carlos e Elena, enquanto no outro estavam Gi, Sol, Fede e Bruno, o primo de Fede, um cara super divertido. Antes de partir, passaram pela Delicias Caballito, onde tiveram que comprar aqueles famosos medialunas de manteiga que deixavam qualquer um sem fôlego. Fofinhas, brilhantes com o toque perfeito de doçura e aquele cheirinho caseiro que cativou toda a vizinhança, com certeza seriam a companhia perfeita para o mate da manhã.

Depois de 385 quilômetros de piadas e histórias, especificamente quatro horas e nove minutos de viagem, chegaram a Tandil. O clima estava lindo, bastante fresco, com um sol radiante, perfeito para passear pelas lindas ruas da cidade, com aquele cheiro do interior do país, com aquele cheiro de tranquilidade. Assim que viam uma mercearia, paravam para se abastecer com alguns alimentos, álcool e as famosas pepas (aquelas que seriam responsáveis por gerar o êxtase para aproveitar ainda mais a viagem), e  como, segundo o Google Maps, estavam a apenas seis quilômetros do centro da cidade, poderiam voltar ali se algo faltasse, então não se preocuparam com os detalhes.

“Como chegamos à Cascata de Tandil?” perguntaram na mercearia – ao que o vendedor respondeu, vocês precisam deixar o carro em um estacionamento da região e caminhar apenas meio quilômetro pela trilha da cascada, que depois continua até chegar ao morro. Essa trilha segue ao longo de um riacho e aí vocês chegarão à famosa Cascada de Tandil, mas relaxem, não tem erro, diz o vendedor. Como curiosidade, informo que este lugar é muito visitado pelos porteños para respirar um pouco longe da cidade, mas não no inverno, tomem cuidado, há muitos mitos envolvendo as serras – sorriu sigilosamente. Assim, depois de algumas horas, entre compras e compras, decidiram continuar seu caminho antes que o sol se pusesse, e assim encontrar o lugar ideal para a aventura que estava apenas começando.

Seguindo as orientações do vendedor, depois de alguns minutos de caminhada entre o clima frio e o relevo rochoso nativo da região, chegaram ao destino: Uau! Exclamaram elas… Lá estava a famosa Cascada de Tandil: linda, cristalina, caudalosa. Tinha chovido nos dias anteriores e ela estava em seu máximo caudal, sem dúvida um lugar mágico. E como era de se esperar, imediatamente começaram as selfies para as redes sociais; embora a internet fosse péssima, seria material publicável ao voltar – imagina quando a Karina ver este post? Vai morrer de inveja, diz Elena.

Logo se organizaram, montaram suas barracas e prepararam um lugar para a famosa fogueira, era noite de pepas. Fede levou uma bateria portátil para conectar seu computador e tocar música para animar a noite – tudo tinha saído conforme planejado. Entre os comentários que surgiam, o de Bruno se escutava com mais força: “Meu pai me contou sobre um mito que diz que nestas serras crescem plantas alucinógenas”. Ao que Fede responde: “E o que é melhor para isso do que as pepas?” – sorrindo sarcasticamente, deixando Ema e Carlos curiosos sobre o assunto. Ao chegar a noite, já estavam tomando seu fernet com coca, que não podia faltar, e as meninas uns drinks mais leves, indo mais devagarinho que os meninos, visto que as pepas já eram suficientes.

No decorrer da noite, Ema, Carlos e Fede vão urinar na liberdade da serra e conversam sobre o que Bruno comentou antes, então decidem se aventurar a caminhar um pouco; que boludos somos, acreditando em histórias desse velho idiota, diz Carlos enquanto continuam caminhando. Depois de alguns minutos pela fria e escura serra, eles avistam ao longe uma luz, e assim encontram um aglomerado de cogumelos cor verde brilhante  rodeados por vaga-lumes cor rosa, era quase impossível se aproximar deles com os olhos completamente abertos: sem dúvida um verdadeiro espetáculo visual. Eles imediatamente se aproximaram como puderam e pegaram vários para levar aos outros, mas antes Fede decide mordiscar um e diz: “Isso não tem gosto de nada” – ninguém o ouviu.

Ao chegar à área de acampamento todos ficaram surpresos e no mesmo momento quiseram comer dos cogumelos. Colocaram-nos, então, como marshmallows na fogueira, e os fungos começaram a liberar um aroma indescritível e apetitoso – que cheiro gostoso, cheira à milanesa da minha mãe; não não, cheira à pipoca doce que minha tia preparava naquelas tardes de filmes na casa dela: todos começam a comer como se fosse o melhor manjar de suas vidas, cada um com na sua percepção de cheiro associado a lembranças antigas. Por volta da 1h30 da madrugada e com a música a todo vapor, as meninas decidiram ir dormir, cansadas da jornada do dia.

Após cerca de 30 minutos, Fede começa a ver Carlos de outra forma; ele esfrega os olhos e o vê novamente, percebendo estupefato que seus membros inferiores estavam tomando forma de cavalo, mas mantinha seu tronco e membros superiores intactos. E exclama: caaaara, é um Centauro.

Ao virar seu olhar, ele vê Ema, que parecia um cachorro, mas muito estranho, com três cabeças e uma cauda de serpente… é um… é um… é um Cérbero? E finalmente Bruno, o mais temível à vista, sua cabeça era de um leão, o corpo de uma cabra e a cauda de uma serpente, exclamando com voz temerosa – eeeee… isso foi longe demais – é uma Quimera.

Sem entender o que estava acontecendo, ele começou a notar que as árvores também tomavam formas de guerreiros, eles foram os responsáveis ​​por fazê-los ver a razão em relação às ações que tomaram. As pedras criavam uma espécie de pequena caverna onde podiam se abrigar, representando seus lares, o lugar que deviam honrar, enquanto os soldados estavam prontos para segui-los e acabar com eles, e foi aí que realmente começou aquela jornada. Cada um, do seu lugar, se sentiu assediado e começou a correr para as cavernas. Era literalmente um momento incrível, mitologicamente falando – um Centauro, um Cérbero é uma Quimera fugindo de uma noite de overdose de adrenalina, caindo um por um nesta pequena grande batalha.

Ao amanhecer, as meninas acordaram mais cedo, prepararam os mates e conversaram sobre a grande noite que tiveram. Eles, por sua vez, foram acordando com os raios de sol batendo diretamente em seus rostos, todos com ressaca e um pouco consternados pelas vagas lembranças que cada um tinha.

Ao cair da noite, sem terem comentado absolutamente nada, colocaram a música, acenderam a fogueira e começaram a esquentar seus marshmallows para relaxar e esquecer um pouco aquele episódio que apenas mal lembravam. De repente, aquele cheiro indescritível começou a brotar novamente, esse que era diferente mas trazia lembranças do passado para cada um. Todos se olharam fixamente e de imediato uma ninhada de vaga-lumes cor rosa passou adiante deles – com medo, eles terminam de comer e entraram em suas barracas para dormir.

No dia seguinte, recolheram suas coisas e voltaram para capital, elas com uma boa lembrança daqueles dias na serra, e eles com medo de se perderem novamente em suas próprias mentes, em seus vícios.

Nunca se falou sobre esse assunto, até hoje, quando decidi escrever para vocês.